segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Agonia da França - coleção textos da 2a guerra

5 a 24 de Junho de 1940
 
A Agonia da França
 
 
Tópicos do capítulo:
 
5 de junho: ataque alemão no Somme e no Aisne
Os soldados franceses retornam a pé
10 de junho: Mussolini declara guerra à França
11 de junho: Paris, cidade aberta
A entrevista de Briare
Desfaz-se a aliança franco-britânica
Abandono da Linha Maginot - O impossível “reduto bretão”
Conselhos de ministros em Cangé
13 de junho, em Tours, Churchill prega a coragem
14 de junho, Paris ocupada - O governo em Bordéus
A BEF, reembarca - o GQG perde seus arquivos
Weygand recusa a capitulação
Londres propõe: “França e Inglaterra, nação única”
17 de junho, a França pede armistício - Apelo de Pétain
18 de junho: de volta a Londres, De Gaulle continua a luta
21 de junho: negociação no vagão de Rethondes
23 de junho: Hitler faz com que Mussolini ceda
25 de junho: fim das hostilidades na França
 
 
Dilaceração
 
O ataque alemão no Somme e no Aisne foi previsto pelo GQG francês para 10 de junho. Mais uma vez o inimigo está na dianteira. No dia 5, às 5h da manhã, a artilharia abre fogo, os Stukas mergulham sobre as posições francesas e os tanques surgem na terra-de-ninguém. Começou a segunda fase da campanha do Oeste, a batalha da França.
 
Do lado francês é a batalha do desespero. No Mosa e na Bélgica, a França perdeu 30 divisões, mais 9 divisões inglesas. Os levantamentos prévios nos Alpes, os reforços da África, as reconstituições de unidades permitiram elevar a 66 o número de divisões da frente nordeste. São menos 23 que a 10 de maio - e, ainda mais, as divisões reconstituídas são do tipo ligeiro, com dois regimentos de infantaria, em vez de três, e dois ou três grupos de artilharia, em vez de cinco. As grandes unidades blindadas ou semiblindadas se reduzem a uma DLM de criação recente, duas DCR incompletas e três fracas divisões ligeiras de cavalaria; que não representam, todas juntas, o valor de duas Panzerdivisionen.
 
Contra esse exército amputado, o Exército alemão se apresenta numa situação bem mais favorável que a 10 de maio. Atacava, então, numa região difícil, unicamente com forças rápidas, a massa de infantaria seguindo a uma crescente distância. Agora essa infantaria está em condições de entrar em linha ao mesmo tempo que os blindados. Do Reno à Mancha, contra 27 divisões francesas, a Wehrmacht emprega 45 e, sobre as 22 divisões que Weygand guarda de reserva, pode lançar mais que o dobro. Está em condições de empreender a batalha de massa e a batalha de rapidez, com a mesma superioridade.
 
No entanto, às vésperas dessa luta desigual, o moral do soldado francês era elevado. Pela primeira vez, o Exército se sente comandado. As instruções dadas por Weygand são inteligentes, firmes e claras: abandonar a defesa linear, organizar-se em profundidade, fechar-se nos pontos de apoio cercados, não temer deixar-se ultrapassar pelos tanques. Os combatentes estão confiantes, mas os que conhecem a situação das forças não podem iludir-se.
 
Do lado alemão, encontram-se os grandes realizadores das campanhas precedentes. Von Bock está na ala direita, da embocadura do Somme ao maciço de Saint-Gobain, com três exércitos: 4°, 6° e 9°. Von Rundstedt está no centro, de Saint-Gobain a Montmédy, com o 2°, o 12° e o 16° Exércitos. Leeb continua ocupando a frente de Luxemburgo à Suiça com o 1° e o 7° exércitos. Desta vez ele deve sair de sua passividade e empreender dois ataques, um na Lorena, outro na Alsácia.
 
A impaciência havia fixado a data da ofensiva para 31 de maio, de início. O engarrafamento das retaguardas e a desordem das colunas blindadas forçam-na a tolerar uma espera de seis dias. A manobra deve desenrolar-se em dois tempos: primeiro, uma ruptura da frente do Somme pelo grupo Bock; em seguida, um ataque do grupo Rundstedt em Champanhe. A totalidade deste destruirá os exércitos do Leste, pela retaguarda, num movimento de cerco cuja amplitude atingirá Dole e Pontarlier. O grupo Bock se abrirá como um leque. Uma parte tomará Paris e, por Troyes, Dijon e Lião, dará a volta nos Alpes e atingirá o Mediterrâneo. A outra parte submeterá a Bretanha e assenhorar-se-á da costa atlântica até os Pirineus.
 
O plano é grandioso. Hitler armou-o sem nenhuma das flutuações que marcaram a elaboração do plano de Sedan. Nenhuma previsão foi feita quanto a uma eventual reação do adversário; trata-se mais de um programa de marcha militar do que de um dispositivo de batalha. Mas essa audácia não é vantagem. O Comando alemão conhece exatamente o estado dos restos do Exército francês. Em maio, ele arriscava alguma coisa, em junho não arrisca nada.
 
Todo o patético está do lado francês - do lado do velho Weygand coberto de glória e acabrunhado pela impotência, retirando-se toda noite acompanhado da sombra de Foch, para lhe pedir a inspiração de um milagre. Ele articulou seus fracos exércitos em três grupos. O segundo, Prételat (8°, 5° e 3° exércitos) defende, de Basiléia a Longuyon, uma fronteira ainda não violada. O quarto, confiado ao vencido de Sedan, Huntziger, reúne o 2° e o 4° exércitos, com a missão de barrar o caminho de Châlons. O terceiro, enfim, o maior e o menos preparado, compreende o 6°, o 7° e o 10° exércitos e se espalha de Reims ao mar. Weygand sabe muito bem que sua frente se enfraquece à medida que se aproxima do oeste, mas com os bombardeios e os refugiados nas estradas, seriam necessários mais alguns dias para repartir melhor as suas forças. Por trás de sua tênue linha de batalha, Weygand articulou suas reservas. Os grupamentos Petiet e Audet atrás do GE 3; o grupamento Buisson atrás do GE 4. Quatro divisões de infantaria, a metade de uma divisão blindada inglesa, mais tudo o que resta dos DLM, dos DCR e dos DLC. É dramático à força de ser insignificante. Mas os combatentes não sabem disso. Dia 5, à noite, um imenso raio de esperança ilumina Vincennes, Montry e La Ferté. Os oficiais de ligação chegam das tropas como mensageiros do otimismo. A tática do ouriço é compreendida e aplicada. As tropas lutam encarniçadamente. Entrincheiradas nas cidades, deixam-se ultrapassar pelos tanques e destroem a infantaria que os segue. As aberturas feitas pelos blindados são, no momento, somente corredores estreitos, como aquele pelo qual Rommel penetra entre Abbeville e Amiens ou aquele que a 10ª DP consegue abrir na região de Noyon. Faz muito calor, os dias são intermináveis, as cidades só tem por habitantes soldados e os cães abandonados, e, nos momentos de trégua, ouvem-se os lamentos das vacas pedindo ordenha. Nada poderia ser tão diferentes do corpo-a-corpo, da progressão lenta, da guerra linear tal qual era imaginada sob o comando de Gamelin. Mas os soldados franceses se adaptam a esta nova forma de combate e não se percebe nenhum enfraquecimento. Todos os generais alemães que relataram os primeiros dias da batalha da França frisam a tenacidade e a habilidade da resistência com que se defrontaram. Rommel escreve que os franceses lutaram desesperadamente. Tippelkirsch assinala que, pela primeira vez, “o inimigo prova que sabe conduzir uma batalha defensiva”. Von Manstein, polonês prussianizado, só consegue explicar a estacada sangrenta do seu 38° Corpo diante de Picquigny ao saber que os soldados à frente são “alsacianos, cujos pais serviram na Guarda ou na Marinha do Kaiser”. Depois das derrotas decisivas de Sedan e de Dinant, essa valentia das tropas francesas refeitas deixou apenas um traço sutil na história da guerra. No entanto, seria injusto ignorá-lo.
 
Mas, para a tática de Weygand ser eficaz, seria necessário poder destruir as colunas blindadas que se infiltravam através do quadrilátero de apoio. Não é um pequeno número de tanques espalhados dos Vosges à Mancha que pode consegui-lo.
 
O dia 6 é a repetição do dia 5. No centro, a batalha ganha em profundidade, o Chemin des Dames está perdido, mas o dispositivo como um todo não é afetado. A oeste de Amiens, a ação inimiga é menos violenta do que na véspera - e, no entanto, é desse lado que se produz o primeiro rompimento grave. Com a 31ª DI francesa, que lhe é subordinada, a única divisão inglesa na linha, a 51ª, composta de escoceses das Highlands, mantém 60 km de frente. Luta valentemente, mas seu comandante, o General Fortune, inquieto com a dispersão e com as perdas de suas unidades, mal instruído sobre as novas concepções da batalha defensiva, temendo ficar isolado de seu terreno, determina geral recuo para o Bresle.
 
No dia 7, a luta defensiva continua com sucesso à direita e ao centro do 3° Grupo de Exércitos. É a esquerda que se produz o desastre. O Corpo Blindado Hoth (5ª e 7ª Panzer) lança-se em massa sobre o platô de Hornoy. Não haverá, como em Sedan, uma fuga precipitada, mas tenaz resistência. O que cede é apenas uma camada muito fina sob um golpe muito forte. Rommel dá ordem de contornar os pontos de apoio, de evitar as cidades e as estradas, de progredir através dos campos. Penetrando profundamente nas linhas francesas, ele surpreende a 17ª Divisão ligeira em operação de desembarque e passa por ela sem se deter. A brecha está aberta. À noite, a estação de águas do Rei Sol, Forges, vê, estupefata, sob a sombra de suas belas árvores, chegarem os poeirentos tanques alemães.
 
A estrada de Ruão está desimpedida. O 10° Exército (Robert Altmayer) está dividido em dois. O 9° CE, que forma a sua esquerda, está bloqueado entre o baixo Sena e o mar. Sua história, doravante, será breve. Algumas centenas de homens conseguirão embarcar no Havre e em Saint-Valery-en-Caux. O resto, inclusive o comandante do Corpo de Exército, Ihler, e, ironicamente, o general inglês de nome Fortune, capitulará a 12 de junho.
 
Nesse ínterim, no dia 10, Mussolini declarou guerra à França e à Inglaterra. O Sena foi transposto pelo Grupo Von Bock, que, depois de ter tomado Gaillon e Louviers, marcha sobre Evreux. A ala direita do GE 3, descoberta pelo desastre da sua ala esquerda, recuou para o grande subúrbio parisiense, perdendo na passagem de Oise parte de sua artilharia. A segunda fase da ofensiva alemã começou. Dia 9, às 4:30h, Von Rundstedt atacou de Soissons a Argonne: é dado o golpe de misericórdia.
 
Como no Somme, os soldados franceses lutam com desesperada energia. A 14ª DI do General La Lattre de Tassigny, rompe o assalto alemão em Rethel. O 41° Corpo Blindado é contido diante de Fismes pelo 6° Exército. O 19° Corpo Blindado alemão está por um momento desequilibrado, por um contra-ataque da 3ª DCR e da 7ª DLM. Mas, do Aisne ao Mosa, o Exército alemão dispõe de 6 Panzer, 27 divisões de infantaria de primeira categoria, 11 de segunda e 15 de reserva imediata, contra 23 divisões francesas, incluindo todas as reservas. Os exércitos de Weygand já não se encontram fisicamente capazes de impedir o avanço inimigo.
 
Reims é tomada. A Montanha de Reims cai. O Marne é transposto. Os tanques alemães rodam alegremente nas extensões planas e firmes da Champanhe Pouilleuse. Seguem-se as massas de infantaria, ébrias de poeira, de vitória e de calor. A eventualidade prevista pelo General Weygand na sua nota de 29 de maio, “a ruptura definitiva de nossas posições, realiza-se...
 
 
 
Em Briare, rompe-se a aliança
 
A 11 de junho, cai sobre Paris o fenômeno que acompanha todas as catástrofes militares modernas, a chuva de fuligem proveniente dos depósitos de combustível incendiados. O Governo partira, na véspera, para Tours. Cartazes assinados pelo General Hering, governador militar, anunciam que Paris foi declarada cidade aberta. A decisão foi tomada por Weygand, que considera como militarmente inútil o holocausto de uma capital acossada por todos os lados. Os alemães fazem saber pelo rádio que exigem, para reconhecer essa neutralização, a cessação de toda resistência ao norte da linha Saint-Germain, Versalhes, Juvisy, Saint-Maur e Meaux. A condição é aceita.
 
A notícia de que Paris não será defendida, que será poupada ao horror dos combates, ecoa paradoxalmente como sinal de pânico. Uma multidão imensa, enegrecida pelas cinzas que caem do céu, sai em vagas apressadas pela portas de Fointainebleau e de Orleãns, amontoando-se em todos os veículos imagináveis, puxando carrinhos de mão e carrinhos de bebê, levando crianças e trouxas. Essa gente vai reforçar a multidão que, vinda do Norte da França, se lança como uma torrente sobre a parte ainda livre do país.
 
Enquanto o Governo chegava a Tours, o GQG recuava para Briare. Churchill aí chega no dia 11 à noite, no seu Flamingo particular, escoltado por 11 Hurricanes.
 
O Primeiro-Ministro é conduzido à residência do General Weygand, uma construção cor-de-rosa, que tem o nome bucólico de Castelo do Muguet. Reynaud, Pétain e Weygand esperam-no, assim como o General De Gaulle, a quem Reynaud, na sua última reforma ministerial, fizera subsecretário de Estado da Guerra. Churchill trouxe Éden e os generais Dill, Ismay e Spears. Ao cair da tarde, as nuvens que se amontoam, a tempestade que se forma, o brilho arisco das velas, propiciam um ambiente triste ao encontro franco-britânico, o mais dramático que já houve.
 
A exposição da situação militar feita por Weygand consterna os ingleses. “Minha língua secou”, conta Spears... No entanto, ao invés de enegrecer o quadro, o Generalissímo aponta razões de otimismo, coloridas de uma total irrealidade. Não há mais um só batalhão de reserva. Os 135 km do setor do baixo Sena são mantidos por 5 divisões, das quais duas só tem dois regimentos de infantaria, e os 44 km de Ourcq ao Maine, por uma só divisão. “Mas - diz Weygand -, o 2° Grupo de Exércitos conseguiu restabelecer-se e é incontestável que o adversário está muito cansado. Dá-se como que uma colorida entre o seu ofegar e o nosso esgotamento. O deus dos exércitos decidirá...”. No entanto, a decisão do deus dos exércitos já foi tomada. Mais da metade das divisões alemães de infantaria não foi ainda engajada e sobra às Panzer mais fôlego do que lhes é necessário para atingir os Pirineus.
 
Weygand falou nervoso e petulante, como era de seu temperamento. Churchill, que não gostava dele, desejou ouvir Georges, a quem conhecia pessoalmente e no qual tinha confiança. Sóbrio e triste, Georges é ainda mais desencorajador do que o comandante-chefe. O limite é atingido. A França está nas últimas.
 
Churchill não se resigna. Tudo o que a eloquência pode colocar num debate, ele coloca. Torrentes de palavras. Fantástico jargão anglo-francês, incompreensível e límpido, mímico passando do furor à persuasão e da exortação à explosão. Mas seus argumentos são pateticamente fracos em face da invasão que penetra o corpo de um país vencido. Churchill deseja que a Alemanha se lance contra a Inglaterra para proporcionar uma trégua à França - mas não é ele que comanda a Wehrmacht. Desejava que se prolongasse a resistência por uma guerrilha geral - mas a guerrilha é de geração espontânea e não se decreta de um castelo. Ele promete ajuda inglesa, mas aquilo de que dispõe é quase nada de imediato: uma divisão - “com 72 canhões”, declara em tom confidencial, como se revelasse um segredo providencial, e 25 divisões “para contra-atacar na primavera”. Agora que o inimigo está às portas de Paris e avança a 50 km por dia!
 
Um momento! Pétain quer dizer alguma coisa. Ele está tão pálido, diz Spears, que se diria uma máscara de gesso. Fala olhando para as mãos, postas diante de si, sobre a mesa. Churchill acaba de lembrar que houve, durante a guerra precedente, horas desesperadoras e que a volta da sorte sobreveio no momento em que tudo parecia perdido. O General Weygand responde que as situações não são comparáveis, que não havia em 14-18 a cooperação do tanque e do avião, que transformam o ritmo da guerra. Pétain quer acrescentar algo: em março de 1918, ele enviara 20 divisões para salvar o exército de Gough, que acabava de penetrar na área do Somme, depois 20 outras divisões, um pouco mais tarde, no mesmo dia em que Churchill veio vê-lo em seu QG. Falando sempre fitando as mãos, sem levantar o rosto lívido, Pétain conclui: “Naquela época, a Inglaterra tinha na França 60 divisões...”
 
A Inglaterra não tem mais divisões. Mas ainda tem aviões, e, antes de tudo, é da força aérea que o resultado da batalha depende. Reynaud reclama a ajuda total da RAF. Churchill se fecha. Os franceses lamentam. Weygand conta a experiência de um bombardeio aéreo, por ele sofrida, alguns dias antes, no QG de Robert Altmayer. A única maneira de devolver a ascendência aos soldados franceses é varrer dos céus esses aviões que os atormentam e desmoralizam. Isso requer uma intervenção maciça dos caças ingleses. É o momento decisivo. Ainda é tempo. Logo será tarde demais.
 
Churchill é bifronte. Fala a seus aviadores, ao comandante da Força Aérea, Marechal Dowding, como Weygand lhe fala - mas, diante dos franceses, são seus argumentos que ele defende. Não, não são nem o momento nem o lugar decisivo. O momento será aquele em que Hitler lançar a Luftwaffe contra a Inglaterra, campo de batalha decisivo. É preciso reservar a RAF para este combate do qual depende a sorte do mundo. Se a luta for perdida, tudo estará perdido. Se for ganha, tudo estará salvo. Inclusive a França (“Se pudermos manter o comando do espaço, se pudermos manter aberto os mares, poderemos obter tudo isto de volta para vocês...”)
 
A tempestade desaba do céu. A chuva cai torrencialmente sobre a horda de refugiados bloqueados ao longo da nacional 7. A conferência franco-britânica terminou. Bem poderia não se ter realizado. Uma breve reunião, na manhã seguinte, sobre as mesmas teses sem sucesso, não faz mais do que repetir a anterior. Nenhuma decisão é tomada. Foi tratada vagamente a questão do reduto bretão, que o General Robert Altmayer foi encarregado de organizar, mas - se bem que a cooperação da Marinha britânica seja indispensável - nenhuma palavra foi pronunciada a respeito de um prolongamento da resistência francesa na África do Norte. Por outro lado, Paul Reynaud esbarrou com dificuldades inesperadas quando quis dar seguimento à idéia do envio de duas novas classes para além do Mediterrâneo. Noguès respondeu-lhe com objeções de tempo de paz: falta de casernas e de instrutores, situação sanitária desfavorável, estações quente, etc. Finalmente, o comandante-chefe na África do Norte aceitou simplesmente o envio de 20.000 jovens soldados, uma miséria. Seus colaboradores mais próximos testemunharão que ele estava longe de suspeitar da gravidade da situação e que ficou aterrorizado com a derrota.
 
A aliança está morta. O diálogo já não se estabelece. A Inglaterra não pode ser censurada por querer conservar para si a sua arma suprema, os 25 grupos de caça do Fighter Command. Mas Churchill é o primeiro a compreender a incoerência de uma posição que consiste em pedir à França que aceite a devastação total de seu território, o massacre ou a captura de toda a sua população, enquanto ele guarda para si o pequeno número de aviões que talvez ainda pudesse modificar o curso dos combates. “Durante essa miserável discussão - escreverá ele, eu estava obsedado pela tristeza, pensando que a Inglaterra não tinha sido capaz de uma contribuição mais importante à guerra e que, até agora, os nove décimos de esforços e os 99% de sofrimento haviam sido jogados somente sobre a França”... Mas este movimento sentimental, este nobre remorso não o podem desviar do objetivo primordial, a salvação de seu país.
 
Ele parte, ao fim da manhã. O céu encoberto, não permitindo aos Hurricanes escoltá-lo, ele viaja audaciosamente no seu pequeno Flamingo e sobrevoa temerariamente a mancha de óleo do avanço alemão. Sobre o Havre em chamas, a cortina de nuvens que o protegia se abre e ele acaba sua viagem a 30 m de altitude sobre a Mancha, para escapar aos caças inimigos. A prestação de contas que faz nesta mesma noite ao gabinete de guerra assim se resume: a França está perdida.
 
A quimera do Reduto Bretão
 
Às 13:15h, três horas depois da emocionante partida de Churchill, o General Weygand assina a ordem de recuo geral que preparou na véspera. A finalidade é manter a coesão dos exércitos, cuja ruptura, desagregação e cerco são apenas questão de horas, se eles permanecerem em suas posições. Devem-se retirar para uma linha de retaguarda que vai da Suiça, ao mar, por Rousses, Champagnole, Dole, Côte-d’Or, Morvan, o Loire - de Briare a Tours, Alençon e Caen. A questão da Linha Maginot está resolvida: abandonam-na. O General Prélelat, que comanda o GE 2, havia proposto isto, muitos dias antes, mas Weygand, temendo o efeito moral, havia adiado o sacrifício e deixado atrás do inútil escudo da França três exércitos intactos, o 3°, o 5° e o 8°. Agora ordena sua retirada, o mais rapidamente possível, para o eixo Sarrebourg-Epinal-Dijon. As esquipes de trabalho cobrirão a retirada e depois se reunirão ao grosso da tropa. Assim, depois de ter custado alguns bilhões de francos, que teria pago um corpo de batalha, depois de ter falseado todo o pensamento militar francês, a funesta linha é sacrificada sem combate.
 
No centro, o 2° e o 4° exércitos recuam para Troyes e Nevers. Na ala esquerda o Grupo de Exércitos de Besson de desagrega. O 7° Exército (Fère) e o Exército de Paris (Hering), este, mais fantasma do que substância, se dirigem para Orleães contornando a capital neutralizada. O 10° Exército (Altmayer) é posto sob ordens diretas do GQG. Seu recuo segue um eixo excêntrico: Ruão, Argentan, Rennes. A missão que lhe foi designada é dupla. Primeiramente, manter a extremidade ocidental da linha de retaguarda; em segundo lugar, organizar e defender o reduto bretão.
 
Exército, palavra majestosa! Significa um imponente QG, serviços múltiplos, unidades de combate numerosas e poderosas, estados-maiores transmitindo de escalão a decisão do chefe. Mas só a palavra ficou, como uma fachada de um monumento desmoronado. Metade das divisões desapareceu completamente. Muitas das que restam se reduzem a três ou quatro batalhões e a um pequeno núcleo de artilharia. Deserta quem quer: basta misturar-se à onda de refugiados e deixar-se levar por ela. O exercício do comando tornou-se quase impossível, pelo engarrafamento das estradas e pela perda do material de transmissão. As ordens, para as quais se exigia antes rigoroso código cifrado, são dadas agora pela rede telefônica civil, obstruída, danificada e obsoleta.
 
Em Briare, o Castelo do Muguet, acantonamento do comandante-chefe, só está ligado aos exércitos e ao mundo por um telefone de parede, colocado diante da porta dos gabinetes e que não funciona das 12 às 14 horas, por causa do almoço da recepcionista. Alguns dias mais tarde, o Deuxième Bureau só poderá informar-se do avanço inimigo chamando as cidades ameaçadas com o auxílio de um outro telefone de parede, colocado no gabinete do diretor da escola primária superior de Ussel. Os últimos dias de agonia da França vão-se desenrolar fora da realidade. Um comando fantasma tentando dar consistência a uma sombra de exército.
 
A 12 de junho, o General Altmayer ouve falar pela primeira vez do “reduto bretão da defesa nacional”. Ordenam-lhe que constitua “uma frente defensiva nas linhas do Rance e do Vilaine, cobrindo Rennes na altura de Vitré”. Seu exército está reduzido a duas divisões, em conseqüência da captura de sua ala esquerda. Reforçam-no pondo à sua disposição as 4 divisões do 16° Corpo. Um dos principais defeitos dessas divisões é o fato de que não existem. Os soldados e seu chefe, o General Fagalde, foram arrancados de Dunquerque, mas é preciso reorganizá-los e armá-los dos pés à cabeça. Seu efetivo é avaliado em 50.000 homens, amálgama do que restou de 17 divisões, mas é a custo que, a 13 de junho, 2 ou 3 batalhões estão em condições de combater. No dia 16, ainda não se pode contar senão com 12 batalhões, 8 baterias de 75 e 4 baterias de 25. Salvo na infantaria, isso não chega sequer a eqüivaler a uma divisão do tipo comum.
 
O grupamento Fagalde tem outro ponto fraco: não está no reduto bretão, mas na Normandia, nos arredores de Alençon. Em lugar de trabalhar na organização das “linhas do Rance e do Vilaine” - que não tem nem um metro de arame farpado -, é preciso que esse grupamento recue diante de um adversário dez vezes mais ágil. A 17 de junho, Rommel avançará 240 km - enquanto os defensores do hipotético reduto bretão marcham com os pés ensangüentados. Como as Panzer deixariam de chegar antes deles a Rennes e Brest?...
 
Tours tornou-se a capital da França. Os ministérios foram dispersados por todos os castelos de Touraine. As ligações são difíceis, por causa das distâncias e do atravancamento das estradas. Seriam necessárias semanas para que o Governo recomece a funcionar, de maneira mais ou menos normal - enquanto o Loire já está designado como a frente suprema, onde se tentará estancar a invasão. Alguns quiseram que se imitasse o precedente de 1914, que só se recue até Bordéus. Mas Tours continua sendo o caminho de Brest. O Governo hesita diante da bússola dos exílios.
 
Cangé, nas margens do Cher, tornou-se a residência do Presidente da República francesa em derrocada. Enquanto Churchill voava para Londres, Reynaud e Pétain partiram em direção a esse Champs Elysées da desgraça. Weygand seguiu-os. Chega quando o Conselho de Ministros já está em reunião, num salão em que falta a mesa de deliberações. São 7h, o sol ainda está alto e, ao fundo do vale verde, vê-se correr indolente o Cher.
 
A exposição de Weygand é ainda mais catastrófica - e mais verídica - do que a feita na véspera para Churchill. Ele não deixa subsistir nenhuma esperança. Os exércitos ainda não estão desagregados, continuam nas mãos de seus chefes, mas é uma questão de dias para que se tornem uma horda perigosa para a ordem pública. O prosseguimento das operações militares é impossível, e é um dever para com o Exército, e para com o país, pedir ao inimigo as condições de um armistício.
 
Os ministros não estavam preparados para o choque. Ignorando as questões militares, cuidadosamente mantidos longe do comando das operações, eles foram joguetes de sua própria propaganda. Celebra-se ainda a retirada de Dunquerque como uma vitória que anulou a que o inimigo conseguira nas Ardenas num golpe surpresa. A batalha da França prossegue, as divisões blindadas alemães se esgotam, Paris ainda não foi tomada e, atrás de Paris há o Loire, onde se espera o choque decisivo. Atormentado pela fadiga, pela insônia, pela angústia e pela humilhação, Weygand falou a esses civis - os quais vê como principais responsáveis - com um tom irritado, com uma intensidade emocional que o faz confundir seu infortúnio pessoal de grande chefe, caindo da glória na desonra, com o naufrágio da pátria. Os civis reagem estupefatos. Aceitar a derrota? Pedir os armistício? A opinião pública, a França, o mundo não compreenderá... Paul Reynaud argumenta. Weygand falou como militar, mas o problema não é exclusivamente militar. Um pedido de armistício seria inútil: Hitler não é um velho gentleman como Guilherme II; Hitler é um Gengiscã: ele só vê na guerra o extermínio dos vencidos. Mais vale a pena prosseguir na luta, entrincheirar-se no reduto bretão e, se forem expulsos, atingir Argel, e, se for preciso, Dacar, e se for preciso, Fort-de-France - esperando que os americanos fabriquem tanques e os aviões que, por sua vez, esmagarão o inimigo comum.
 
A discussão acaba em tumulto. Weygand se retira. Vários ministros falaram contra o armistício. Alguns com ardor, como Dautry e Louis Marin. O ministro de Informações, Jean Prouvost, expressou sua hostilidade à idéia de abandonar o território nacional, e só o Marechal Pétain aprovou de maneira categórica o pedido de armistício. Nenhuma decisão foi tomada. Reynaud pediu a Churchill que voltasse à França, para um novo exame da situação com o governo francês. Antes de cometer o irreparável, é preciso ouvir sua última palavra.
 
Churchill chega a Tours, escoltado por sua esquadrilha de Hurricanes, no dia 13 de junho, às 13h. Ninguém o espera no aeródromo recentemente bombardeado. Ele encontra um carro e, com os lordes Halifax e Beaverbrook, vagueia pela cidade cheia de fugitivos. O Grande Hotel abre para o Primeiro-Ministro seu restaurante fechado por falta de gêneros e prepara-lhe um almoço que ele tem a ingratidão de declarar execrável. Enquanto Churchill acalma o apetite, o governo francês procura-o. Paul Baudouin descobre-o no momento em que ele sai da mesa e leva-o à Prefeitura, onde Paul Reynaud o espera. A discussão se trava imediatamente.
 
Reynaud declara que se desobriga do mandato que lhe foi confiado por seu Conselho de Ministros. Qual seria a atitude da Inglaterra se o pior acontecia à França, se ela era obrigada pela esmagadora superioridade alemã a se retirar do campo de batalha comum?
 
Antes de responder, Churchill recomeça seu magnífico discurso de Briare. Prega a coragem dos últimos instantes e volta à idéia de uma guerrilha que faça da França o túmulo da Wehrmacht, Mas, fato singular, fala apenas da frota francesa, trunfo principal, e não toca no Império francês, imensa posição de recuo, sobre a qual a colaboração franco-britânica teria possibilidades de se organizar. O que significa dizer que prega o impossível. A guerrilha nasce por si mesma contra o inimigo enfraquecido. Não surge contra o inimigo triunfante.
 
A eloquência é vã. A derrota é iminente. Chamado à realidade, Churchill declara que a Inglaterra se absterá de recriminações inúteis e que, vitoriosa, ela restabelecerá a França em sua dignidade e grandeza. No entanto, não se trata de desligá-la do tratado pelo qual, a 28 de março, ela se obrigou a não concluir em separado uma paz ou um armistício. Aceitar um fato brutal é uma coisa; outro é legalizá-lo.
 
A tarde passa. O céu se cobre. Novamente a discussão se dispersa. Os ingleses - em número de nove, bloco maciço em face de Reynaud e de Baudoin - escondem a custo sua decepção diante do que pressentem (a palavra é de Spears) como uma política nova e derrotista da parte de Paul Reynaud. Tendo pedido uma suspensão da sessão para conferenciar, eles vão refrescar suas morosas reflexões passeando em volta do tanque mofado do jardim da Prefeitura. O mais veemente é Beaverbrook. “Não se meta em nada - diz ele a Churchill. - Estamos perdendo nosso tempo. Voltemos!”.
 
Reiniciada a sessão, o Primeiro-Ministro declara que a consulta que acabou de fazer a seus colegas não modificou em nada a sua maneira de pensar. Acrescenta que se juntará a Paul Reynaud para dirigir um apelo solene ao Presidente Roosevelt e que durante as próximas 48 horas a Inglaterra continuará a apoiar as tropas francesas. “Esta hora - conclui Churchill - talvez seja a mais negra de todas aquelas que teremos de viver. Mas continuo totalmente confiante na destruição do regime hitlerista”. Se eu perdesse esta confiança - responde Reynaud -, minha vida não valeria a pena ser vivida.
 
No parque de Cangé, os ministros aguardam. Ao verem surgir Paul Reynaud sozinho, manifestam sua surpresa. Um deles, Bouthillier, lembra que havia sido combinado na véspera que o Governo como um todo ouviria Winston Churchill - ao que Paul Reynaud respondeu nervosamente que Churchill tinha pressa de voltar a Londres e que aliás sua vinda a Cangé teria sido inútil, uma vez que os dois governos estão de acordo em todos os pontos. Bouthillier e Chautemps protestam: como poderia haver acordo uma vez que o Conselho suspendeu sua decisão?
 
De novo Weygand fala. O quadro que ele traça sobre a situação militar não pode ser mais sombrio, nem mais premente seu pedido para cessar o massacre do Exército francês. Questionando a sorte da esquadra, sugere enviá-la, antes de qualquer pedido de armistício, aos portos da África, para que fique fora do alcance inimigo. Por outro lado, declara “absurdo e odioso” o projeto de um recuo do Governo para as possessões de além-mar. “Por mim eu não deixaria o solo francês, mesmo que tivesse que ser agrilhoado...” Depois, extremamente nervoso, pede permissão para voltar ao seu QG. Parte, e, na antecâmara, diz em termos soldadescos o que pensa dos políticos, que, “com o traseiro na poltrona”, prolongam o sacrifício inútil dos soldados.
 
O crepúsculo veio envolto numa chuva fina. O parque se encheu de sombras. O vale do Cher se apaga. O Marechal Pétain pede permissão para ler uma declaração. As palavras se confundem no papel e ele deve aproximar-se de uma janela para decifrá-las. Um silêncio de profundidade vertiginosa dá um tom macabro à voz entrecortada do velho. “É impossível para o Governo abandonar o território francês sem emigrar, sem desertar... É preciso esperar aqui mesmo a renovação do nosso país, mas do que a conquista do nosso território por canhões aliados, em condições e num prazo impossíveis de prever... Ficarei aqui entre o povo francês, no governo ou fora dele, para partilhar suas penas e suas misérias... O armistício é, a meu ver, a condição necessária da perenidade da França eterna...
 
Assim, o grande dilema está criado. Dois patriotismos estão face a face. Um pensa que é possível transportar a chama da pátria para fora da pátria. O outro crê que não há força e verdade senão no solo natal. Um está pronto a sacrificar todo o presente, a abandonar a nação inteira à mercê do inimigo, para manter intacto o princípio da inflexibilidade e para exigir de um futuro imprevisível uma reparação integral. O outro pensa que é preciso aliviar os sofrimentos da França, impedir a captura total de seu Exército, não deixar que ele seja entregue a um Gauleiter, preparar uma renovação nacional livrando do desastre o que pode ser salvo. Talvez nenhuma classe, nenhum partido, nenhuma família pertença exclusivamente a uma ou outra destas duas concepções opostas do dever. Os comunistas são fundamentalmente a favor do armistício - como Weygand e Pétain. De Gaulle vem dos mesmos meios religiosos e conservadores que se unirão em massa pela cessação das hostilidades. O velho patriota de direita Louis Marin é ardorosamente contra o armistício, mas não é nem mais patriota, nem mais de direita, nem mais ardoroso do que o velho combatente basco Jean Ybarnegaray, que se resigna como soldado disciplinado que é. O tecnocrata Jean Monnet é contra, mas o tecnocrata Yves Bouthillier é a favor. O radical Chautempos é a favor, mas o radical Herriot é violentamente contra. Alguns dos que são a favor estão contaminados pela ideologia totalitária e penetrados de admiração pela revolução nacional-socialista, mas outros, Weygand à frente, são inimigos fanáticos da Alemanha e só vêem no armistício uma pausa durante a qual eles prepararão a retomada das armas. Os argumentos de uns e de outros são tão fortes que esta oposição violenta das consciências é profundamente respeitável. Os fatos não darão razão nem a uns nem a outros. Os que partiram voltaram coma auréola da vitória - mas o que teriam eles encontrado sem o trabalho de conservação dos que ficaram? As ferozes acusações com que eles perseguem desde um quarto de século perderão sua significação para as gerações posteriores. Elas não verão traidores e heróis, capituladores e aventureiros, mas unicamente franceses dilacerados por um trágico conflito.
 
No dia seguinte nenhuma deliberação foi tomada, a não ser a de fugir para Bordéus. No primeiro conselho de Cangé, Paul Reynaud havia adiado que se tomasse em consideração o pedido de armistício, por causa da entrevista que devia ter com Churchill no dia seguinte. No segundo conselho, invoca, para justificar novo adiamento, o apelo de Churchill e ele tinham combinado dirigir ao Presidente Roosevelt. Desde o dia 10 de junho, alguns minutos antes de deixar Paris, Reynaud se havia voltado para o chefe dos Estados Unidos e, em nome da solidariedade das democracias, lhe havia pedido que ajudasse a França e a Inglaterra por todos os meios, “salvo o envio de um corpo expedicionário”. Indo mais longe, pedirá a Roosevelt que lance imediatamente a América na guerra. “É preciso - diz ele a seus ministros - esperar a resposta do presidente antes de decidir se convém negociar com o inimigo ou continuar a luta além-mar...
 
No dia 14, de manhã bem cedo, os automóveis ministeriais deixam o vale do Loire e dirigem-se para Bordéus. É mais ou menos a hora em que os vencedores entram em Paris. Os alemães chegam pela Porta Maillot, contornam o Arco do Triunfo, dirigem-se para a Praça da Concórdia e vão acantonar nas casernas abandonadas. Eles não pertencem às Panzer mas a uma divisão de infantaria do 4° Exército, de tal maneira que seus equipamentos hipomóveis espantam os parisienses, que há seis semanas só ouvem falar em blindados. Apesar do êxodo, a capital não está completamente vazia. Alguns cafés continuam abertos, assim como dois ou três cinemas dos Champs Elysées, um dos quais anuncia o filme americano “Do Mundo Nada se Leva” O rádio, já requisitado, difunde Deutschland uber alles e Horst Wessel Lied. Paris inicia seu cativeiro. O relógio da Estação Saint-Lazare foi parado por mão desconhecida às 7:10min. e no alto da Torre Eiffel ainda flutua a bandeira tricolor. Mas os primeiros soldados alemães que lá sobem desprendem-na e levam-na como lembrança.
 
Para a defesa do reduto bretão, o Comando francês conta com a ajuda da Inglaterra. Esta tem ainda algumas tropas na França, notadamente o grupamento Beauman, restos da batalha do Somme, e uma 52ª Divisão que em marcha de caranguejo conduziu da Linha Maginot, onde ela se encontrava a 10 de maio, até Cotentin. A Inglaterra enviou sua primeira - e única - divisão blindada, já inteiramente gasta, e envia uma divisão canadense que constitui o saldo das forças britânicas em situação de combater. O comandante do novo corpo expedicionário, Alan Brooke, chegou dia 11 à noite a Cherburg, a bordo de um velho e pequeno cargueiro holandês e, tendo passado a hora do fechamento do porto, nem mesmo teve autorização de vir a terra como barco do prático. Dois dias depois, empreende a viagem a Braire, a fim de manter contato com Weygand e Georges.
 
Experiência estafante, desmoralizante esta travessia da França cortando colunas de refugiados que vêm do Norte. Orleães é uma massa compacta de automóveis. Os arredores dos postos de gasolina, vazios até a última gota, são cemitérios de veículos abandonados. Rebanhos de mulheres e crianças, embrutecidas pela fadiga, acampam nos bosques. Nos povoados, longas filas se formam diante das padarias e das bicas. A torrente corre inesgotável, rolando como aluviões de soldados e de canhões. Brooke renuncia atravessar a estrada de Vierzon, faz uma grande volta, por Sologne, torna a encontrar diante de si o rio humano e só consegue transpô-lo organizando uma barragem com alguns dos oficiais que o acompanham. Chega a Briare, depois de 12 horas de viagem, completamente esgotado.
 
No dia seguinte o general inglês é posto a par de sua missão: participará da defesa do reduto bretão, cujo estabelecimento, segundo lhe dizem, foi decidido pelo Conselho Supremo Aliado. Sem dizer nada, Brooke tira o compasso do bolso e mede no mapa a largura do ponto em questão: 150 km. “São necessárias - diz ele - 15 divisões. Onde estão elas?”. Weygand e Georges encolhem os ombros, como homens resignados. “Eu sei. É fantástico” - diz o primeiro. “É romântico” - diz o segundo.
 
A volta vale a ida. Apenas chegado a Mans, onde instalou seu QG, Brooke chama ao telefone Sir John Dill. Avisa que considera que o esquema bretão é um projeto impensado e bastante impossível e que só vê uma coisa a fazer: reembarcar as tropas. O chefe do Estado Maior Geral se espanta: de que projeto bretão se trata? Um momento depois, torna a chamar, diz que consultou Churchill, o qual lhe afirmou que nenhum acordo fora concluído em Braire com respeito a uma defesa comum da Bretanha. Em conseqüência, Brooke deve levar para a Inglaterra todas as tropas que não combatem com o 10° Exército francês, isto é a divisão canadense, os dois terços da 52ª Divisão e todos os serviços. As ordens correspondentes são dadas apressadamente.
 
Na hora do jantar, o telefone de Londres toca mais uma vez. Desta vez, Dill põe um Brooke espantado em comunicação com o Primeiro-Ministro, com quem ele fala pela primeira vez. A ligação é ruim mas a voz de Churchill ressoa com uma ênfase persuasiva. Ele pede a Brooke que suspenda os embarques, porque é preciso que os britânicos fiquem até o fim fiéis à aliança e sustentem com todas as forças a resistência dos franceses. Brooke responde brutalmente que é impossível reanimar um cadáver. Durante uma meia-hora, em meio de chiados e estalos, a conversa prossegue num tom muito animado. No fim, o Tenente-Coronel Alan Brooke não pode senão colocar-se moralmente em posição de sentido. “Yes Sir...”
 
Fora ele, no entanto, o ganhador: convencera Churchill. A partir do dia seguinte de manhã, a ordem de embarque é reiterada. O GQG de Briare - em mudança - recebe uma nota de Sir John Dill, informando-o de que o General Brooke já não lhe está subordinado. Em Cherburg, Brest, Saint-Nazaire, Nantes, La Rochelle, Verdun, Bayonne, 150.000 ingleses, 25.000 poloneses e 18.000 franceses se apressam a subir a bordo dos navios. A tragédia não está ausente desta partida. O Lancastria, atapetado com 5.800 homens, é afundado pela Luftwaffe ao sair do estuário do Loire. Durante várias semanas as marés trarão à costa cadáveres ingleses.
 
Não haverá reduto bretão. Todos os esforços de Altmayer para executar a ordem romântica são inúteis. Ele instalará seu PC em Rennes, a 16 de junho, e, algumas hora mais tarde, será capturado na própria cidade. Só resta do 10° Exército o 3° CE, do obstinado La Laurencie, que escapa por Nantes à armadilha bretã e recuará combatendo em direção ao rio Creuse.
 
No Loire, a esperança de estabelecer uma linha de retaguarda não se concretiza em parte alguma. Todas as cidades ribeirinhas, todas as passagens do rio são violentamente bombardeadas. Fantásticas multidões civis e militares se atropelam para travessá-lo. Por pouco o GQG inteiro não é capturado diante da ponte de La Charité-sur-Loire. Os arquivos do comandante-chefe, embarcados num vagão de mercadorias, caem nas mãos do inimigo: Hitler encontra 3.000 documentos ultra-secretos que estabelecem especialmente as disposições franco-britânicas para violar a neutralidade norueguesa, o engarrafamento do Danúbio, a sabotagem dos poços de petróleo romenos e o ataque de Bacu.
 
Tudo o que pode escapar ao inimigo se refugia agora no Maciço Central. Longas colunas de canhões sobem ruidosamente as íngremes encostas do Limousin e do Auvergne. O GQG chega a Vichy, põe na rua os hóspedes do Hotel du Parc, começa a instalar-se como para uma guerra de sete anos - e retira-se no dia seguinte porque os alemães já estão em La Palisse. O Comando francês estancará durante 48 horas em La Bourboule e partirá outra vez para o final de sua caminhada, Montauban.
 
Nos Alpes, a guerra começa lentamente. Dois dias depois de sua declaração, o pequeno exército comandado pelo General Orly (3 setores fortificados, 1 divisão colonial, 3 DI da série B) só assinala “contatos amigáveis” entre as patrulhas alpinas italianas e francesas. Ansioso por obter qualquer êxito, Mussolini ordena a seu chefe do Estado-Maior, o Marechal Badoglio, tomar a ofensiva. “O Exército italiano - diz Badoglio - não tem nem mesmo camisas”. “Você não compreende, então - retruca Mussolini -, que tenha necessidade de alguns milhares de mortos para me sentar na conferência de paz?”. O 1°, o 4° e o 7° Exércitos italianos reúnem-se na fronteira e o ataque geral é fixado para 18 de junho.
 
Na Lorena, na Alsácia, no Franco Condado, os exércitos do Leste tentam executar a ordem de recuo do dia 12. Para que eles se reagrupem na região de Dijon, devem percorrer em média 250 km diariamente. Ora, desde o dia 11, Guderian abriu em brecha entre a direita do 4° Exército francês e a esquerda do 2°. Reeditando a manobra do Manteuffel contra Bourbaki em 1871, ele se precipita para cortar a retirada do GE 2. O pesadelo do Estado-Maior francês, o envolvimento da Linha Maginot, se realiza também. Mas é apenas um corolário na demonstração da superioridade alemã, um requinte no suplício e no castigo francês. A 16 de junho, Guderian já se encontra no Saône. Atropela a fraca cobertura que lhe é ativamente oposta e mata o chefe da tropa francesa, o General Cosson. Depois, com a admirável flexibilidade tática dos comandantes alemães de tropas rápidas, faz girar o 41° Corpo em torno de Gray, para jogá-lo sobre o Mosela, de Charmes a Remiremont, enquanto, tomando pessoalmente o comando da 2ª Panzer, penetra em Besançon e Pontarlier...
 
Entre os franceses, é total o desespero. Sob pretexto de estudar no local a instalação de seu grupo de exércitos, o General Prételat escapou até Gex, de onde, dirá ele, tentará em vão voltar para partilhar a sorte de seus soldados. Abandonados a si mesmos, seus três comandantes de exército, Condé, Bourret, Laure tem apenas uma vaga idéia da situação. Os movimentos metódicos que eles prescreveram são inexeqüíveis. A aviação alemã, que os tinha ignorado até então, cai sobre eles. Suas colunas se confundem e se paralisam mutuamente. O 7° Exército alemão atravessa o Reno e invade a Alsácia. Muitas divisões, todo o 20° Corpo ainda está na região de Metz, enquanto informes a que se recusa dar crédito e que são superados pela realidade, assinalam que o inimigo surge na linha de retirada do grupo de exércitos. Bourret e Condé enviam ao GQG um radiograma angustiado. “Assinalamos situação extremamente crítica, 23 grandes unidades em parte deslocadas, 7 elementos orgânicos de corpo de exército, 2 QGs de exércitos ameaçados de cerco. Recuo e restabelecimento impossíveis. Massa refugiados. Bombardeios por toda parte. Conclamamos chamar imediatamente atenção comandante-chefe e governo”. Georges responde que o GE 2 deve continuar a executar a manobra prescrita, depois do que fala em “salvar a honra da bandeira” - índice infalível de que tudo está perdido.
 
Algumas horas depois desta troca de mensagens desesperadas, Guderian entra em Pontarlier. Sua prestação de contas provoca um telegrama assinado por Hitler. “Sua mensagem deve conter um erro. Sem dúvida trata-se de Pontailler-sur-Saône”. Guderian responde: que era realmente Pontarlier. Por sua vez, o Grupo de Exércitos do Leste está cercado.
 
Com o coração partido digo-vos que é preciso cessar o combate...”
 
Em Bordéus, a dispersão governamental de Tours foi substituída pela promiscuidade. A Rua Vital-Carles transformou-se no bulevar dos poderes públicos. Paul Reynaud instalou a presidência do Conselho na sede da 18ª Região. O Presidente da República ocupa a residência do prefeito, ao lado, sendo que seu ministro do Interior, Georges Mandel, ocupa a Prefeitura na Rua Espitit-des-Lois. O embaixador da Inglaterra, a quem se tentou afastar para um castelo do Médoc, preferiu amontoar-se com seu pessoal nos compartimentos do Consulado, na Rua Montesquieu. Outro ponto estratégico é a casa de Paul Baudouin, na Rua Saint-Genès, onde os amigos de Weygand se encontram. Outro é a Câmara Municipal, na Praça Pey-Berland, cujos serviços o prefeito de Bordéus, Adrien Marquet, que passou do socialismo ao fascismo, coloca à disposição de Pierre Laval. O triângulo dentro do qual se vai desenrolar a última tragédia da Terceira República mede menos de 1.000 metros de lado. As paixões que aí se desencadeiam continuam a fervilhar nas veias da nação.
 
Ao redor dos atores, a multidão, na qual se misturam os mais humildes refugiados às cabeças mais importantes da aristocracia, do talento e da fortuna. A infelicidade coloca pessoas de condições sociais as mais diversas numa comunidade de problemas de que os mais mesquinhos, o alojamento e a alimentação, não são nem os menos difíceis nem os menos angustiantes. Ver-se-ão Gulbenkian, que vale um milhão de toneladas de petróleo, mendigar alguns litros de combustível para continuar sua viagem à Espanha. Trágicas angústias e o medo de um destino implacável pesam sobre homens e mulheres que nunca deixaram de ser os filhos prediletos da segurança e do poder. Os mais velhacos, os mais abjetos ignoram se existe um meio de abjurar que possa preservá-los da vingança do conquistador. O calor, a fadiga, a espera, a angústia, o sofrimento concorrem para a criação de uma atmosfera de irrealismo na qual mergulham essas multidões saídas da derrota. Clima esse bastante nítido em todas as narrativas das jornadas de Bordéus.
 
Os primeiros dos repetidos golpes que irão abater Paul Reynaud lhe é desferido, dia 15 de manhã, pelo Almirante Darlan. Este, logo que ouviu falar em armistício, insurgiu-se: “Se eles ousarem, escutem-me bem, parto com a esquadra...”. Visão grandiosa, projeto que teria feito de François Darlan, ao chegar a portos ingleses à frente da esquadra, o mais ilustre, o mais comentado, o mais importante de todos os franceses. Talvez nunca cheguem a ser conhecidas as razões que provocaram sua desistência. Convocado por Reynaud, ele chega de Royan mal humorado, para mostrar ao chefe do Governo que seu projeto de transportar 870.000 homens para a África do Norte é irrealizável. Na realidade, Darlan fez sua opção - e tudo se desfaz, pois a partida espetacular da esquadra teria certamente tornado impossível o armistício, arrastado o Império e, de uma maneira ou de outra, dado à guerra um outro rumo.
 
Depois de Darlan, Pétain... Poucos minutos após o almirante, o marechal está no gabinete do presidente do Conselho. Exige que um conselho de ministros se reuna às 16h, e declara que pedirá demissão se o pedido de armistício for adiado mais uma vez.
 
Weygand, por sua vez, chega sem pressa de seu GQG muito provisório em Vichy. A mensagem que o convoca para estar em Bordéus às 10:30 h, em casa de Baudouin, é assinada pelo Marechal Pétain, que nenhuma autoridade direta possui sobre o general-comandante. Weygand, corretamente, adverte Paul Reynaud, que lhe responde com uma fórmula de polidez mundana: “O Senhor será sempre bem vindo”. À procura de uma noite de sono, Weygand teve a idéia de fazer a viagem em seu trem especial. Todas as suas prioridades de comandante-chefe de nada servem numa rede cujas articulações estão cortadas pelos bombardeios. Às 7h da manhã, depois de 12 horas de viagem, Weygand se encontra em Châteauroux, a 150 km de seu ponto de partida, tendo subido para o norte ao invés de descer em direção ao sul. Consegue-se, com dificuldade, recolocá-lo no sentido certo, mas ele só chega à estação de Bordeuax-Bastide à tarde. Com o rosto marcado pelas lágrimas, o General Lafont, comandante da 18ª Região, espera seu chefe e amigo com ordem de conduzi-lo ao presidente do Conselho.
 
Um pouco vexado pela lembrança de sua irritação em Cangé. Weygand prometera a si mesmo ficar calmo.: vã promessa! Reynaud lhe comunica a decisão em que se fixou. Imitarse-á a Holanda: o Governo deixará a França e ele, Weygand, capitulará com o Exército. A indignação sufoca o general. “O que procura - grita ele - é uma transferência de responsabilidade. Se o Governo tomou a responsabilidade da guerra, é ele quem deve tomar a responsabilidade do armistício”. Em vão Reynaud fala em emitir uma ordem pondo a salvo o Comando. Weygand responde que não deixará que lancem a desonra sobre as bandeiras do Exército francês, e recusa-se a obedecer.
 
Mais uma vez, duas concepções do dever se opõem. A recusa de Weygand corresponde ao código de honra tal como é interpretado pela imensa maioria dos oficiais. Sete anos depois, diante de uma comissão de inquérito imbuída do mais puro espírito da resistência, o segundo homem do Exército francês, General Georges dará plena razão a seu chefe: “É ao governo que cabe decidir se é ou não necessário continuar a luta... Uma capitulação em campo raso é desonrosa para o chefe de um exército. Nossas leis o proíbem da maneira mais formal. O artigo 234 do Código de Justiça Militar pune-o com morte e degradação militar...”. Às 16:15h, o Conselho convocado por Pétain, abre sua sessão. Por cansaço ou oscilação, o Marechal está menos categórico do que estava horas antes. Astuciosamente, Reynaud prossegue em seu plano, jogando com a impaciência angustiada do velho diante do prolongamento da inútil carnificina: um armistício exigiria vários dias de negociações, enquanto que o cessar-fogo poderia ser imediato. Pétain aceita apresentar este ponto de vista a Weygand, que, tendo prestado contas dos últimos acontecimentos militares, espera no jardim-de-inverno. Depois de 15 minutos, o Marechal volta: Weygand não caiu na armadilha. A segunda tentativa para fazer capitular somente o Exército - para que, diz Reynaud, “a França seja Guilhermina e não Leopoldo”- fracassou.
 
Em sessão, o sutil Chautemps age. Não contradiz a tese de Reynaud, que sustenta que as condições de Hitler serão inaceitáveis. Mas por que não as propor e com isto tirar a prova? Se ele se recusar a concordar com um armistício, se pretender ditar as cláusulas contrárias à honra, tais como a entrega da esquadra, então será demonstrada a necessidade de prosseguir a luta além-mar... Reynaud, que percebe a engrenagem, combate a proposição, mas uma rápida contagem lhe mostra que 13 de seus ministros aderem à proposta e que apenas 6 se opõem a ela. Levanta-se e declara que está demissionário, mas Albert Lebrun consegue retê-lo.
 
Weygand continua no jardim-de-inverno. Reynaud aproxima-se dele com seu passo curto e decidido. “General, o Conselho de Ministros é favorável à capitulação exclusiva do Exército. É o senhor quem deve pedi-la”. Weygand protesta furiosamente, pede que o destituam, jura que não lhe arrancarão jamais a infâmia para a qual o fizeram vir de tão longe. Fracassa a terceira tentativa precipitada para separar o destino do Exército da sorte do país legal.
 
A noite caiu. Paul Reynaud retomou seu lugar na mesa de ébano com folhas de acanto douradas do prefeito da Gironda. Dois visitantes vieram ter com ele, o embaixador Campbell e o General Spears. Chega um telegrama para o presidente do Conselho, que empalidece um pouco mais. “Nosso apelo - diz ele - fracassou; os americanos não declararão guerra”. Depois de encorajamentos e promessa de ajuda material, a resposta de Rooselvelt termina com as seguintes palavras: “penso que compreendereis que estas declarações não implicam em nenhum engajamento de ordem militar. Somente o Congresso poderia assumir tal compromisso”.
 
No dia seguinte, domingo, 16 de junho, o Marechal Pétain lê ao Congresso de Ministros seu pedido de demissão; as súplicas quase perdidas de Albert Lebrun decidem-no a colocar em suspenso um gesto que acarretaria a dissociação do Governo. Reynaud anuncia então sua derrota junto à Roosevelt e, o que deixa os ministros ainda mais consternados, a recusa do Gabinete britânico em retificar o que os franceses interpretaram como o consentimento de Churchill a um armistício em separado. Reynaud acrescenta que propusera ao Primeiro-Ministro um encontro, no mesmo dia, em Nantes, para uma exposição.
 
Mas os acontecimentos mudam de direção. Campbell reaparece na Prefeitura anunciando uma nova tomada de posição, da qual acaba de ser avisado, por telefonema, de Londres: a Inglaterra aceita que a França interrogue o inimigo sobre os termos de um armistício, com a condição de que a esquadra francesa vá para os portos ingleses e que aí permaneça, enquanto durem as negociações. Um pouco mais tarde, o embaixador volta com o texto da proposta, que entrega a Paul Reynaud. Poucos minutos antes das 16h, ele se faz anunciar pela terceira vez. Uma nova ordem acaba de lhe ser enviada: deve pedir ao chefe do Governo francês a restituição da nota que lhe havia entregue no começo da tarde. Por que? Campbell o ignora.
 
Ele ainda não se tinha despedido quando um telefonema de Londres chama Paul Reynaud. Quem fala é De Gaulle. A notícia que ele transmite é digna do adjetivo “sensacional” tão usado. À França, cujos joelhos se dobram, a Inglaterra ainda intacta propõe uma fusão. “A França e a Inglaterra não serão daí em diante duas nações, mas uma União Franco-Britânica. Todo cidadão francês receberá imediatamente a nacionalidade inglesa, todo súdito britânico se tornará cidadão francês. Haverá um só gabinete de Guerra, ao qual todas as forças de terra, ar e mar estarão subordinadas... A União consagrará toda a sua energia em combater o inimigo, onde quer que a batalha se desenrole. Assim venceremos”.
 
Projeto grandioso, digno de Churchill! No entanto, não parte de Churchill! Derivado de uma idéia de Jean Monnet, provém dum homem de aparência glacial como o Polo Norte, Lorde Halifax, e dum diplomata clássico como uma urna grega. Sir Robert Vansittard. Mas foi adotado entusiasticamente pelo gabinete. “Fiquei um pouco surpreso - diz Churchill - de ver homens políticos calmos e experientes engajarem-se num imenso projeto cujas implicações e conseqüências não tinham sido medidas...” Era a expressão do transtorno das consciências que a tragédia francesa provocava na Inglaterra. Depois da convocação de Dunquerque, ela retomara exteriormente a rotina de um verão calmo. Nenhuma bomba caía sobre a Britânia. As praias que a invasão iria ameaçar estavam ainda repletas de banhistas. Chegando de sua França crucificada, De Gaulle ficara chocado pela amenidade de Londres, os parques cheios de passeantes, os porteiros agaloados às portas dos clubes. Mas o coração das nações é complexo como o dos homens. A indiferença de fachada escondia uma perturbação profunda. Esta inspirou o poderoso impulso de imaginação que associava no mesmo futuro as duas nações então feridas por golpes tão desiguais.
 
Mas Londres é Londres, e Bordéus é Bordéus. A terrível derrota fecha os espíritos a tudo que não seja a realidade imediata. Um novo perigo, a fome, se erguera sobre as multidões em marcha. O General Georges assinala-o: “17 horas. Situação, agravada mais uma vez... Graves dificuldades de abastecimento, tropa e populações em retirada... Necessidade absoluta tomar decisão...”Um sentimento leva rapidamente à unanimidade nacional, desde os comandantes-chefes doentes de angústia até os últimos combatentes acabrunhado pela impotência, desde os refugiados que choram de fome até o velho marechal que se recusa a sentar-se à mesa do Conselho: urge uma decisão. A União Franco-Britânica é uma abstração grandiosa. A realidade é este turbilhão sem nome.
 
Mais uma vez - a última - os membros do gabinete Reynaud estão reunidos. Aquele que ainda é seu chefe expõe o projeto da União, declara que o aceita, que telefonou para Churchill e que foi combinado um encontro em Quiberon ou em Concarneau, Mas só provoca surpresa, desconfiança e hostilidade. Ybarnegaray é o primeiro a dizer, com sua voz retumbante, que a Inglaterra quer fazer da França um domínio. Chautemps, chorando porque acaba de saber do bombardeio de sua cidade, Blois, declara que nada mais há a fazer senão acabar com a matança. Um sarcasmo de Mandel - “O Conselho está dividido; de um lado, os bravos; de outro, os covardes”- provoca gritos furiosos. Com tenacidade, Paul Reynaud insiste, mais uma vez, em que o Exército capitule e que o Governo se exile, a fim de construir o futuro, realizando a união franco-inglesa proposta por Londres. Mas a maioria de seus ministros está agora contra ele. Seria preciso que ele pedisse demissão, recebesse do Presidente da República a missão de formar um novo Gabinete, eliminasse Pétain, destituísse Weygand... Faltam-lhe os meios para esta operação radical, a começar pela resolução de Albert Lebrun, que vacila e chora. Nem mesmo foi dito que a Câmara Municipal de Adrien Marquet não se tornaria sede de uma Comuna bordalesa, que a multidão de refugiados, totalmente antiparlamentarista, não a aclamaria e que não seria constituído um governo insurrecional para por fim ao combate.
 
Duas horas depois, Paul Reynaud está demissionário. No inicio da noite, o marechal Pétain é designado para constituir o novo governo. Ao Presidente da República, que lhe pede que o faça rápido, o Marechal responde, tirando da pasta um pedaço de papel coberto de nomes: “meu governo aqui está!”.
 
Aos 30 minutos do dia 17 de junho, o embaixador da Espanha, Lequerica, é tirado da cama. O novo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paul Baudouin, pede-lhe que transmita ao governo alemão o pedido de armistício da França.
 
Ao meio-dia, uma voz alquebrada pela idade, uma voz de octogenário, propaga-se através das ondas. E faz verter torrentes de lágrimas, ao mesmo tempo que enche os corações de um covarde consolo. “Faço à França - diz o Marechal Pétain - a doação de minha pessoa para atenuar sua desgraça... É com o coração partido que vos digo que é preciso suspender o combate...”
 
De Gaulle parte para a desforra
 
Efetivamente, em toda parte, o combate cessa. Os generais percebem que os regimentos se dissolvem e que os homens abandonam as linhas de fogo. O inimigo levanta bandeiras brancas, grita que a guerra acabou, por persuasão faz milhares de prisioneiros, que, algumas vezes, confraternizam com os vencedores. Medindo o erro cometido, emite-se uma nova versão da mensagem: “É preciso tentar suspender o combate...” Chega-se a retomar um certo numero de unidades, mas não se trata mais de manobra ou de front contínuo. Todo esforço militar se reduz a retardar a progressão alemã, colocando nas estradas tampões que tolhem a passagem nas pontes ou a entrada dos povoados. Além disso, as autoridades civis, e mesmo militares, passam a destruir a energia dos últimos defensores da pátria. Prefeitos investidos de suas faixas vêm intimar os comandantes de destacamento a se retirarem do território da comuna, como se fossem ciganos. Herriot, prefeito de Lião, contradiz o patriota Herriot, opondo-se à destruição das pontes de sua boa cidade, mesmo que a sua conservação comprometa toda a defesa do Sudeste. No Oeste, tradicionalmente conservador, é que as deficiências do patriotismo são mais numerosas. O General De La Laurencie, batendo em retirada do Perche em Anjou, mostra ao General Besson que ele combate “num ambiente de decomposição nacional”. Em Angers, De La Laurencie foi intimado pelo prefeito a não defender a cidade, para evitar a esta o horror de um bombardeio. Ele é mais impotente ainda para defender Nantes, tendo seu colega, o General Griveaud, comandante da 11ª Região, se recusado a destruir as pontes.
 
Em Saumur, os cadetes da Escola de Cavalaria, reforçados por um grupo de saint-maixentais, preparam-se para disputar as passagens do Loire, mas o prefeito percorre as ruas num carro com alto-falante dizendo que Samur é “cidade aberta” e que não deve ser defendida. Incidentes análogos ocorrem em Tours, Poitiers, Cholet, em toda a Bretanha, no Maine, em Anjou, em Poitou - sem falar nas outras províncias invadidas. Todos os povoados se enfeitam de bandeiras brancas. Depois das divulgações de uma propaganda que anuncia a irrupção de uma horda de incendiários e de sádicos, a disciplina e a boa postura da Wehrmacht produzem ao seu redor um verdadeiro choque. Muitos refugiados em dificuldades são socorridos pelos invasores. Cartazes imensos mostrando uma criança nos braços de um Feldgrau são pregados nos povoados conquistados: “Populações abandonadas, tende confiança nos soldados alemães”. A cólera nacional não se dirige mais contra o Exército alemão, contra a Alemanha vitoriosa, e sim contra os políticos responsáveis pelo desastre. Paul Reynaud, ao deixar Bordéus, é reconhecido e vaiado. Mesmo em Bordéus, onde as ruas se transformaram em míseros bivaques, os parlamentares não ousam reunir-se nos cinemas colocados à sua disposição, por medo de serem linchados.
 
Um dos primeiros atos do novo governo é o de declarar “cidades abertas” todos os povoados de mais de 20.000 habitantes. Nenhuma resistência deve ser organizada em seus limites e as formações combatentes devem evitar atravessá-las. Os generais mostram, em vão, que esta decisão torna definitivamente impossível a defesa do território. No ponto em que está a guerra, as considerações militares perderam o valor.
 
Brest é tomada no dia 19. No mesmo dia, tendo como artilharia somente seus canhões automotorizados, Rommel se apodera dos fortes, da cidadela da cidade e do porto militar de Cherburg. O Loire, transposto em La Charité desde 16 de junho, o foi em todo o seu curso nos dias 19 e 20 - agora é a vez de províncias, tão desabituadas a invasões, como Berry e Poitou, conhecerem o passo das colunas inimigas. No Leste, a situação do 2° GE é desesperadora. O 45° CE tenta penetrar em direção a Pontarlier, fracassa e se interna na Suiça. O 8° Exército é totalmente destruído em torno de Gérardmer. O 5° Exército tem a mesma sorte em volta de Saint-Dié. O 3° Exército, cortado entre o Mosa e o Mosela, avisa que não tem mais alimento para 1.200.000 militares e civis que se aglomeram na região. A terça parte do que foi o Exército francês agoniza de Bensançon a Metz. Enquanto isso, de Maurienne a Queyras, 22 divisões italianas tomam a ofensiva de que Mussolini necessita para ser, ele também, um vencedor.
 
A 17 de junho, dá-se no aeroporto de Mérignac um acontecimento insignificante. Um aviãozinho levanta vôo clandestinamente, sobrevoa o porto de La Pallice em chamas, a Bretanha devorada pelos incêndios, faz escala em Jersey e pousa em Crydon. A bordo, três passageiros: o General Spears, o tenente Geoffroy de Courcel e o General De Gaulle. Este tendo chegado, na véspera, de Londres, volta para lá cumprindo o juramento que fez a si mesmo, nas planícies do Aisne: combater enquanto for necessário, onde for preciso, até que seja lavada a honra nacional...
 
Em Londres, Speras leva De Gaulle diretamente a Downing Street, onde Churchill, tendo terminado seu dia de trabalho, descansa no jardim. O General explica ao Primeiro-Ministro que vem continuar a luta ao lado dos ingleses que se propõe constituir um Comitê Nacional com personalidades que se aliarão a ele, e, principalmente, que deseja fazer um apelo aos franceses cativos para que conservem a sua coragem, e aos franceses livres, para que a ele se unam em seu empreendimento. Churchill felicita-o, agradece-lhe, coloca a BBC à sua disposição para o dia seguinte. Depois, quando De Gaulle já se despedira, volta-se para Spears com uma expressão furiosa: Por que me apresentou a esse general desconhecido? O que quer que eu faça com ele? Por que não trouxe um político. Mandel ou outro, em torno do qual os franceses pudessem unir-se? Enfim, um nome...
 
No dia seguinte, 18 de junho, propaga-se através das ondas radiofônicas inglesas a primeira proclamação degaulista. Não contém, como muitas vezes se diz, a frase imortal “A França perdeu uma batalha, não perdeu a guerra”, que foi escrita alguns dias depois nos muros de Londres. Depois de algumas considerações técnicas sobre a derrota, o general desconhecido simplesmente convida os franceses que se encontram em território britânico a entrar em contato com ele, para continuar o combate. O tom é bastante frio e a voz nada convincente. Os que puderam ouvi-la, entre fugitivos e soldados derrotados, podem confirmar como essa voz suscitava muito mais ironia, hostilidade ou mesmo injúrias do que aprovações. Ainda mais, porque ainda ecoavam nos corações os sons patéticos da véspera: “Faço à França a doação de minha pessoa para minorar sua desgraça...”
 
Em Bordéus, as horas ainda são de ansiedade. Espera-se a resposta alemã. A inquietação aumenta. Hitler não concedeu armistício nem à Polônia, nem à Noruega, nem à Holanda, nem à Bélgica - exigindo sempre a capitulação irrestrita, a rendição incondicional. É normal pensar que ele reserve a mesma sorte para o inimigo mais odiado, a França. A idéia de uma saída para a África do Norte retoma consistência. Pétain está atado pelo juramento que fez de em caso algum deixar o território nacional, mas o Presidente da República deseja partir, e vê-se que uma parte do Governo, conduzida pelo vice-presidente do Conselho, Camille Chautemps, o acompanhará a Argel, enquanto os inarredáveis do solo pátrio, Weygand, Baudoiun, Bouthillier, permanecerão com o Marechal. Lebrun embarcaria em Port-Vendres, depois de uma estada na Prefeitura de Perpignan, que já tinha um apartamento enfeitado de flores para recebê-lo. Para os membros do Parlamento que quisessem acompanhar o meio-governo do exílio, 200 lugares são reservados a bordo do navio Massilia, então em reparos em Verdun.
 
Enfim, dia 19, às 6:30h da manhã, Lequerica, por sua vez, acorda Baudouin. O Governo alemão se declara pronto a dar a conhecer suas condições para uma cessação de hostilidades. Pede o envio de plenipotenciários e sugere ao Governo francês entrar em contato com a Itália, com o mesmo objetivo.
 
A delegação deveria estar pronta, e não está. É constituída, às pressas, com o Embaixador Léon Noel, o ministro plenipotenciário Rochart, o Almirante Le Luc, os generais Parisot e Bergeret. Para a presidência a escolha de Weygand recai sobre Huntziger, que ele tira de seus exércitos e cujos olhos azuis lançam um olhar aflito quando o novo ministro da Defesa revela o motivo da convocação. Uma só diretriz é dada à delegação com firmeza e clareza: romper imediatamente, caso os alemães peçam a entrega da esquadra. Esta ordem categórica é comunicada a três ingleses angustiados: Lorde Lloyd, o Primeiro Lorde do Almirantado, Alexander, e o Almirante Sir Dudley Pound, que acabam de chegar a Bordéus. Darlan faz ainda um juramento solene de que jamais um navio de guerra francês cairá em mãos alemães. Mas Churchill não esconderá a sua incredulidade.
 
Enfim, no dia 20, às 14 horas, quando a delegação parte, o pânico, a degradação moral a que o conglomerado urbano de Bordéus se entregou, tornaram-se indescritíveis. À noite, aviões mataram uma vintena de pessoas - e bastou esse bombardeio minúsculo para lançar a pretensa elite política e mundana da França em degradantes transes de terror. Recomeça o êxodo para Toulouse e Bayonne, que é invadida por uma das multidões mais descontroladas desta época de loucuras. As bombas sobre Bordéus, o prosseguimento do avanço alemão que atinge La Roche-sur-Yon, Niort e Poitiers, parecem provar que a Alemanha não encara seriamente um armistício. Albert Lebrun insiste em ir imediatamente para Perpignan, a fim de estar pronto para embarcar para a África do Norte. Mas Pierre Laval, à frente de um grupo de partidários seus, invade a residência do Presidente da República e, fora de si, disposto à violência corporal, impede-o de fugir antes de pedir demissão. Após um momento de indecisão o Marechal resolve proibir que todo titular de cargo público se afaste de Bordéus. “E se Lebrun insiste?” pergunta Baudouin. “Eu o prendo”, responde Pétain.
 
Um grupo de parlamentares, entre os quais o ex-ministro Mandel, são os únicos a partir, a bordo do Massilia. E tem que engolir as ofensas da tripulação do navio, que neles vê os desertores de um desastre de que foram culpados.
 
No dia 21 de junho, depois de uma viagem de agonias em estradas semeadas de destroços da derrota, a delegação Huntziger é levada ao vagão de Marechal Foch, retirado do Museu de Compiègne e, conforme as instruções pessoais de Hitler, recolocado no lugar exato em que se encontrava no dia 11 de novembro de 1918. Segundo Weygand, essa assinatura do armistício no meio do bosque tinha a intenção de refrear o orgulho alemão. Mas, ao invés disso, o propósito de Hitler é ferir o orgulho francês. A imprensa internacional está presente e a rádio alemã transmite a cerimônia. O olhar satânico de Hitler percorre a clareira, graceja diante da inscrição que fala do “criminoso orgulho alemão vencido pelos povos livres que pretendia subjugar”, e, depois de ordenar a destruição do memorial da derrota que ele apaga, sobre ao vagão fatídico e se coloca no lugar que Foch ocupara. Keitel faz a leitura de um panfleto acusando a França de perjúrio e agressão, depois o texto com as condições do armistício é entregue aos vencidos. Estes são advertidos de que nenhuma discussão será admitida e de que somente poderão pedir esclarecimentos. Huntziger em vão lembra que os plenipotenciários alemães de 1918 tiveram autorização para consultar seu governo antes de apor sua assinatura às condições aliadas. O mais que obtém é uma ligação telefônica, para ler o diktat a Weygand. O aparelho chia, estala e destroi a metade das palavras. Weygand repete as frases à medida que chega a compreendê-las e seu ajudante-de-ordens, o capitão Glaser, as transcreve. É assim que o contrato de servidão do Governo francês lhe é notificado.
 
Mais uma vez, no meio da noite, o Conselho de Ministros se reúne nos salões da Prefeitura de Gironda. Verifica-se que a esquadra está a salvo e que nenhuma cláusula contraria a honra, com exceção da que ordena a entrega dos refugiados políticos alemães. No entanto, a crueldade das condições é sufocante. Três quintos do território serão ocupados. O Exército será reduzido a 100.000 homens. Os prisioneiros não serão devolvidos. As despesas da ocupação serão estipuladas à mercê do vencedor. Lebrun, Darlan e o próprio Chautemps declara que essas exigências são inaceitáveis, fazem voltar à cena a idéia de um prosseguimento da guerra, na África do Norte. Mas a exposição de Weygand é desencorajadora. No Magrebe, esvaziado para alimentar a batalha da França, só restam 4 fracas divisões mistas, sem uma peça de DCA, sem uma viatura posterior a 1918. O comandante-chefe acha que o Exército alemão está em condições de prosseguir o curso de suas vitórias do outro lado do Mediterrâneo e que a resistência que se lhe poderia opor não ofereceria esperanças.
 
Finalmente, apesar da notificação de que nenhuma discussão será admitida, decide-se que Huntziger fará um esforço para obter que Paris não seja ocupada, a fim de que continue possível a administração da França. Mas ninguém espera convencer ou enternecer Hitler.
 
Durante a deliberação ministerial, um homem indignado, Ronald Campbell, aguarda na antecâmara. Quando Baudouin reaparece, ele extravasa seu descontentamento. Há duas horas que espera! Ele, embaixador de uma potência ainda aliada, tem o direito de ser informado e consultado. Baudouin nada consegue ao dizer que não dispõe de tempo para longas conversações, porque os alemães exigem uma resposta da França às 9 horas da manhã. No dia seguinte, Sir Ronald deixa Bordéus, no último navio inglês. Estão rompidas as relações diplomáticas franco-inglesas.
 
Chega-se ao fim. Em Compiègne, Keitel recusa todos os pedidos de abrandamento. É necessário assinar ou romper. Unânime, depois do movimento de revolta da véspera, o Conselho de Ministros ordena a Huntziger que assine: este o faz no dia 22 de junho, às 18:30 horas.
 
Antes no entanto, fez uma última declaração. O artigo 23 subordina a vigência de armistício à conclusão de um armistício análogo com a Itália. Assim, a delegação francesa partirá imediatamente para Roma, mas Huntziger se interessa em dizer o seguinte: a França não admitirá de um país que não lutou exigências semelhantes às que acabou de aceitar da Alemanha vitoriosa. “Se tais exigências nos tivessem sido apresentadas, retomaríamos nossa liberdade de ação. Nossa marinha e nossa Força Aérea estão intactas. A França já passou por outras. Se assinar o armistício, executará lealmente suas cláusulas. Mas não é preciso que Roma a coloque diante de insinuações que nada justificam...”
 
Ao falar assim, com voz enérgica e arrogante, Huntziger não sabe que sua causa já foi ganha e que seu aliado se chamou Adolf Hitler. Este, logo que tomou conhecimento do pedido de armistício, convidou Mussolini a vir entrar em acordo com ele. A entrevista se realizou em Munique, na mesma sala em que se desenrolara a negociação com Chamberlain e Daladier, em 1938. O Duce, cujas tropas se engajam a custo, chegou cheio de pretensões. Queria vantagens territoriais até o Reno, a entrega da esquadra francesa. Para sua grande decepção, Hitler cortou as asas de suas ambições. Diz o Fuhrer que não deseja impor à França uma paz aniquiladora e pede que Mussolini compreenda que suas exigências levariam o governo francês a prosseguir a luta em suas colônias de além-mar. O Duce insiste para que, ao menos, as potências do Eixo exijam a entrega da esquadra francesa. Hitler adverte-o de que justamente esta seria a cláusula que poria tudo a perder.
 
Mussolini regressa furioso. Enquanto em Roma a delegação Huntziger negocia numa atmosfera de cortesia ele não para de atormentar Badoglio para que ao menos tome Nice e constitua, pelas armas, o direito de ocupação da grande cidade. Tempo perdido: a invasão italiana não ultrapassa a metade do Menton. As perdas francesas são insignificantes e, nos Alpes, o fracasso da ofensiva é tão completo quanto no litoral. Pela primeira vez, o General Gamelin se revela profeta (“Se a Itália está contra nós - dizia ele -, necessito de quatro divisões”). É exatamente aquilo de que dispõe o General Orly.
 
Mas tendo tomado Lião no dia 19 e saído de Culoz a 21, os alemães marcham para Chambery e Grenoble. No vale do Reno, avançam até Tournon. As resistências encarniçadas que encontram por parte de fragmentos de unidades causam-lhes perdas, mas não podem entravar o desenvolvimento de sua marcha. Quando o armistício de Roma é assinado, pondo em vigor o armistício de Rethondes, o exército dos Alpes é totalmente apanhado pela retaguarda.
 
Aos 35 minutos do dia 25 de junho, cessam as hostilidades. A linha extrema atingida pelo Exército alemão passa por Bellegarde, Aix-les-Bains, Voiron, Tournon, Saint-Etienne, Clermont-Ferrand, La Châtre, Montmorillon, Angoulême. Essas forças devem recuar de quase todas as suas posições para voltar aquém da linha de demarcação. Na Linha Maginot, alguns grupos de trabalho se recusarão a ceder às intimações alemães e só capitularão no início de julho. Muitos chefes, como o tenente-coronel Schwarz, comandante do subsetor fortificado de Haguenau, redigirão processos verbais de protesto, nos quais declararão que seus meios de defesa estão intactos e que cedem não à superioridade inimiga, mas a um mandado compulsório do governo francês.
 
No Exército francês, as perdas de vidas humanas foram pesadas: mais de 120.000 mortos, número bastante elevado para uma campanha de 45 dias. Os holandeses tiveram 2.890 mortos; os belgas, 7.000, e os ingleses, 3.500. Em compensação, as perdas alemães são incrivelmente pequenas: 27.074 mortos, 111.034 feridos, 18.384 desaparecidos. Eddy Bauer, perito militar suíço, faz a seguinte observação: de 10 de maio a 4 de junho, durante os episódios de Sedan e Dunquerque, a média diária de perdas alemães é somente de 2.449 homens. De 5 a 25 de junho, se bem que os combates, a partir do dia 17, tenham perdido muito de sua violência, essa média se eleva a 4.762 homens. Isto confirma o enrijecimento da defesa francesa a partir da batalha do Somme - momento em que a desproporção das forças já não dava qualquer esperança.
 
Fecha-se o primeiro grande capítulo da Segunda Guerra Mundial. A França está completamente eliminada do quadro das potências que dirigem o mundo. Hitler é o senhor da Europa, do Vístula ao Atlântico. Mas o armistício em que consentiu e de que chegará a se arrepender amargamente deixou despovoada de alemães a África do Norte, futura plataforma da reconquista. Talvez seja a justificativa e, pelo menos, é a defesa básica dos franceses que no sofrimento o aceitaram.
 
 

  

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