sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A ação dos corsários

Luta no Mar
 
A ação dos Corsários
Corsários alemães
 
 
A partir de junho de 1941 os cruzadores auxiliares foram as únicas naves de superfície que se mantiveram em operações, no lado alemão. Mesmo assim, sua ação foi permanentemente prejudicada pelas novas armas empregadas pelos Aliados. Contudo, passaria muito tempo antes que as grandes rotas oceânicas fossem patrulhadas pelo ar a pela superfície dos mares, com a necessária eficácia para afastar a ameaça dos corsários. Com efeito, esta forma de guerra chegou ao fim somente em 1943. Quando o Scheer, em outubro de 1940, iniciou a sua missão no Atlântico, o Widder, que deslocava 7.900 toneladas e desenvolvia 14 nós de velocidade, entrava no porto de regresso de uma incursão pelo Atlântico, no curso da qual havia afundado onze barcos e capturado um petroleiro, com um deslocamento total de 66.000 toneladas.
 
A segunda nave corsária que regressou ao porto, na primavera de 1941, foi o cruzador auxiliar Thor, uma ex-baleeira de 3.900 toneladas e 16 nós de velocidade. Sua primeira presa foi um grande petroleiro, que, depois de capturado, foi enviado à França. Depois, internando-se no Atlântico setentrional, o Thor uniu-se ao Scheer e o acompanhou, por algum tempo, em sua campanha, atacando alguns barcos aliados. O primeiro deles foi o Alcântara, de 22.000 toneladas, seriamente danificado. Em dezembro de 1940, foi atingido o Carnavon Castle, de 20.000 toneladas. Em abril de 1941, depois de áspero combate, foi afundado o Voltaire, de 13.000 toneladas. Ao todo, como resultado final da sua primeira saída, 12 naves aliadas, com um total de 96.000 toneladas, foram postas a pique.
 
Em agosto de 1941, regressou ao porto o Orion, após uma missão que se prolongara por 17 meses. Na sua longa travessia, o Orion navegara pelos mares do sul e pelo oceano Índico. Entre os episódios que esse navio protagonizou, destaca-se, pela audácia demonstrada pela tripulação, o lançamento de minas no Golfo de Hauraki, diante de Auckland, em Nova Zelândia, sem ser visto.
 
Mais tarde, o Orion se reuniu ao Komet, proveniente do Estreito de Bering. O Komet com 3.300 toneladas e 15 nós de velocidade, era o menor dos corsários alemães; em compensação, os seis canhões de 150 milímetros e os dez tubos lança-torpedos de que era munido o convertiam em um dos mais fortemente armados.
 
Os dois navios operaram juntos, durante um certo tempo, nos mares do sul, afundando três navios especialmente preparados para o transporte de fosfatos. O Komet, por sua vez, canhoneou as instalações de armazenamento daqueles fosfatos na ilha de Nauru, interrompendo durante vários meses a provisão desse importante fertilizante.
 
O Orion, ao todo, afundou dez barcos inimigos, com um total de 82.000 toneladas. O Komet, por sua vez, destruiu sete, totalizando 42.000 toneladas.
 
O Komet atuou com êxito durante um certo tempo na rota Nova Zelândia-Canal do Panamá. Depois, ingressou novamente no Atlântico, cruzando o Cabo Horn. Em novembro de 1941 efetuou seu regresso ao porto, através do Canal da Mancha.
 
Os dois cruzadores auxiliares, Atlantis, de 7.900 toneladas e 16 nós, e Pingüim, de 7.800 toneladas e 16 nós, foram afundados pelos Aliados depois de um longo cruzeiro.
 
O Atlantis operou, principalmente, no oceano Índico, onde torpedeou dois terços das 22 naves que aprisionou, com um total de 146.000 toneladas.
 
A 22 de novembro de 1941, o Atlantis foi surpreendido por um cruzador inglês no Atlântico meridional, quando estava reabastecendo um submarino alemão. Depois de um curto combate, o corsário alemão foi posto a pique pelos disparos da nave aliada. Esta, em seguida, diante do perigo que representava a presença do submersível, afastou-se do local, sem recolher das águas os náufragos, que foram salvos, pouco depois, pelo Python, barco auxiliar de submarinos. Este último, no entanto, foi vítima de um cruzador aliado, indo ao fundo poucos dias mais tarde. Os náufragos, o bordo de barcos salva-vidas, foram rebocados por dois submarinos alemães que se encontravam nas proximidades. Finalmente, ao encontrarem-se com outros dois submersíveis, os tripulantes salvos das águas foram transferidos para eles. Os submarinos, sobrecarregados, rumaram para o norte. Na altura das Açores, por fim, se encontraram com quatro submarinos italianos, para os quais transportaram a metade dos náufragos, que regressaram então à sua pátria sem sofrer mais nenhum inconveniente.
 
Foi durante o seu cruzeiro pelo oceano Índico que o comandante do Atlantis equipou o Speybank, de 5.000 toneladas, como cruzador auxiliar, batizando-o de Doggerbank. No decorrer da sua missão esta nave lançou minas nas cercanias do Cabo das Agulhas, pondo a pique, com elas, três barcos aliados, que totalizavam 20.000 toneladas. Entre os cruzadores auxiliares, o Pingüim obteve os maiores sucessos, operando principalmente no oceano Índico e na zona antártica, próxima ao indico. Entre suas mais audaciosas incursões, conta-se o lançamento de minas nas proximidades de Sydney, Austrália.
 
O maior sucesso do Pingüim, porém, foi obtido graças à hábil interceptação das comunicações do telégrafo sem fio do inimigo. Enviando mensagens falsas, o Pingüim conseguiu atrair a uma armadilha três grandes naves norueguesas, dedicadas à pesca da baleia, capturando-as. Do mesmo modo, o navio corsário conseguiu apoderar-se de onze pequenas baleeiras. As três naves maiores foram imediatamente enviadas rumo à França, onde desembarcaram 22.000 toneladas de óleo de baleia. Dez das baleeiras também seguiram o mesmo rumo, tripuladas em sua maioria por marinheiros do Scheer, que acorrera em auxílio do Pingüim. Ao chegar ao porto, as baleeiras foram integradas numa flotilha de barcos caça-submarinos. A décima primeira baleeira foi posta a serviço na qualidade de nave de apoio do Pingüim. O petroleiro Storstadt, também, foi rebatizado com o nome de Passat e, depois de utilizado durante algum tempo como nave de apoio do Pingüim, foi transformado em lançador de minas. Cumprindo essa missão, espalhou minas diante de Melbourne e Adelaide; pelo menos, três barcos, com um total de 17.000 toneladas, foram perdidos em conseqüência dessa ação.
 
 
Fecham-se as garras
 
No dia 7 de maio, o Pingüim atacou e afundou um petroleiro na zona ocidental norte do oceano Índico. Na manhã seguinte, avistado por um avião de reconhecimento, sua posição foi comunicada a um cruzador pesado, o Cornwall. Este, após rápido deslocamento, cortou a retirada ao corsário alemão, obrigando-o a aceitar o combate. A luta desigual não tardou a se definir. Apesar de atingido por alguns projéteis do navio alemão, o cruzador inglês mostrou rapidamente a potência tremenda dos seus canhões de 203 milímetros. Um desses disparos atingiu em cheio um dos porões onde estavam armazenadas 130 minas. A gigantesca explosão destruiu totalmente o barco, sobrando apenas pouquíssimos sobreviventes. O Passat, por sua vez, conseguiu escapar, chegando incólume à Europa.
 
O resultado final da missão do Pingüim, que durou quase onze meses, foi a captura de 28 unidades inimigas, com um total de 136.000 toneladas; outros cinco barcos, totalizando 30.000 toneladas, foram afundados por meio de minas.
 
Nos primeiros dias de dezembro de 1941, o Thor partiu para uma segunda missão, e operando no Atlântico meridional e no oceano Índico, pôs dez navios a pique, com um total de 56.000 toneladas. Em fins de setembro de 1942, entrou em Yokohama, e ali, dois meses mais tarde, foi destruído por um incêndio provocado pela explosão ocorrida no barco auxiliar Uckermark, que estava ao seu lado.
 
O Michel, um barco polonês de 4.740 toneladas, armado como cruzador auxiliar pelos alemães, partiu de um porto francês, em março de 1942 e operou, com grande êxito, no Atlântico central e meridional e no oceano Índico. Em março de 1943, chegou ao Japão, depois de destruir 16 barcos aliados com um total de 106.000 toneladas. Uma interessante característica do Michel era a de contar a bordo com uma lancha rápida que era utilizada para efetuar ataques noturnos a navios que fossem avistados durante o dia.
 
O Stier era um cruzador auxiliar de 4.800 toneladas e 14 nós de velocidade, que partiu na primavera de 1942, cruzando, numa manobra arriscada, o Canal da Mancha. No mês de maio encontrava-se em mar aberto, pronto a iniciar suas aventuras.
 
Depois de afundar três barcos no Atlântico central, em fins de setembro deparou no seu rumo com o Stephen Hopkins, navio-mercante que lhe ofereceu séria resistência. O barco aliado, afinal, foi afundado, porém o Stier, atingido também, envolto em chamas, afundou rapidamente. Em sua curta campanha, o corsário alemão afundara quatro barcos, com um total de 29.000 toneladas.
 
Os corsários cedem
 
A partir desse momento, a Alemanha já não enviou mais corsários ao Atlântico. As defesas aliadas, coordenando a ação de aviões de observação, barcos de escolta e patrulha, e radares, tornaram impossíveis as aventuras de novos cruzadores auxiliares.
 
Em outubro de 1942, nas cercanias de Cherburgo, foi afundado o Komet, quando tentava forçar o bloqueio e alcançar o Atlântico para uma segunda missão.
 
O Togo, em fevereiro de 1943, procurando chegar ao mar aberto, conseguiu atingir Boulogne, porto em que se teve que abrigar ao ser atacado e avariado por uma bomba lançada pela aviação inimiga. O Michel, que já foi citado, operou entre os meses de maio e setembro de 1943 no oceano Índico oriental-sul, afundando quatro navios aliados, com um total de 32.000 toneladas. Ao regressar à base, porém, a 600 milhas da costa do Japão, foi atacado e afundado por um submarino americano.
 
Diante da "cortina" levantada pela defesa aliada, também as naves italianas tiveram que interromper as suas atividades e desistir dos seus intentos de forçar o bloqueio. Os barcos do Eixo navegavam, principalmente, entre os portos europeus e o Japão, transportando mercadorias essenciais para o esforço de guerra. O último barco italiano que zarpou rumo ao Extremo Oriente foi o Cortellazzo que partiu a 11 de novembro de 1942, enquanto o último que efetuou viagem de regresso foi o Orseolo, no fim de março de 1943.
 
No dia 8 de abril de 1943 produziu-se uma última tentativa sem êxito, porém. Foi a do Himalaia que, atacado por aviões aliados, teve que se refugiar no porto de Bordeaux.
 
Os "forçadores do bloqueio"
 
As últimas operações dos "forçadores do bloqueio" marcaram o final de um episódio que não voltaria a se repetir, ao serem intensificados o emprego dos aviões e do radar. Contudo, um minucioso balanço das atividades cumpridas até então, permitem revelar que o mais completo êxito acompanhara os corsários até aquele momento. De fato, os cruzadores auxiliares haviam enviado ao fundo do mar perto de 900.000 toneladas de barcos inimigos; esta cifra era semelhante à produção do ano inteiro dos estaleiros britânicos. Ao mesmo tempo, haviam obrigado dezenas de barcos de guerra a patrulhar dia e noite milhares de milhas quadradas de oceanos, para precaver-se da possível aparição do inimigo.
 
Durante as primeiras operações, o sucesso acompanhou a campanha, pelo fato de os comandantes alemães estarem de posse, segundo afirmou o Almirante alemão Friedrich Ruge, chefe do Estado-Maior da Kriegsmarine, dos códigos empregados pelos barcos aliados. Posteriormente, porém, um erro cometido pelo comandante de um corsário provocou uma mudança radical da situação. Esse comandante, quando procedia ao interrogatório de oficiais de um navio inglês que acabava de mandar para o fundo do mar, cometeu a imprudência de citar o fato. Esses prisioneiros foram mais tarde desembarcados numa ilha, onde foram recolhidos por outro navio aliado. A informação, então em poder dos marujos ingleses, chegou rapidamente ao comando naval de Londres, onde foram tomadas as providências imediatas para a mudança de todos os códigos utilizados.
 
Os comandantes dos corsários deviam atuar sempre com a máxima astúcia em seus cruzeiros pelos mares. Eis um exemplo que mostra claramente com que sutileza se comportavam corsários e "caçadores". O Pingüim, cruzador auxiliar, disfarçado de navio-mercante norueguês, foi divisado e sobrevoado por aviões aliados; estes, convencidos de que se tratava de um barco neutro, giraram para afastar-se quando um dos pilotos reparou num detalhe que pôs a perder os alemães: por que nenhum tripulante os havia saudado do convés, como faziam habitualmente?
 
Os "forçadores do bloqueio" prestaram ótimos serviços no começo das hostilidades. Porém, tendo sua eficiência diminuída cada vez mais, logo decaíram de importância prática. Nos dois primeiros invernos da guerra chegaram, provenientes de portos neutros, muitos barcos mercantes. Outros partiram, por sua vez, rumo ao Extremo Oriente. O programa de navegação previsto considerava a partida de doze barcos mercantes em cada inverno, rumo às costas longínquas do Japão, a fim de carregar materiais estratégicos indispensáveis para a manutenção da guerra. Entre esses materiais, ocupava o primeiro lugar a borracha natural, indispensável componente da sintética. Eram, também, necessários, molibdênio e tungstênio para a produção de aços especiais e produtos químicos e medicinais, assim como cobre e zinco, mica, chá e café. Por outro lado, os alemães enviavam ao Japão maquinarias e, numa ocasião, dois submersíveis do tipo IX-C.
 
De acordo com o plano inicial, o total das importações devia alcançar 50.000 toneladas anuais. Essas previsões, porém, eram extremamente otimistas e se afastavam muito da realidade.
 
No inverno de 1941 a 1942, nove das doze tentativas realizadas pelos navios do Eixo tiveram êxito. No inverno seguinte, somente quatro dos quinze barcos partidos do Japão chegaram às costas da França. Em 1943-44, uma só nave, de cinco, conseguiu passar pelo bloqueio.
 
Ao todo, de 31 barcos cargueiros que zarparam de portos do sudeste da Ásia, em viagem direta para a Alemanha, somente 17 chegaram à sua meta.
 
Nos últimos dois anos de guerra, o transporte de matérias-primas absolutamente indispensáveis foi efetuado, em escala reduzidíssima, por meio de submarinos. E também neste caso as perdas foram muito elevadas: de 13, somente 5 chegaram ao seu destino. O total de carga embarcada foi de 217.000 toneladas, das quais 114.000 (entre estas 45.000 de borracha) chegaram ao destino.
 
A odisséia do Kormoran
 
No dia 20 de novembro de 1941, o cruzador australiano Sydney era esperado em Freemantle, sudoeste da Austrália. Mas o Sydney nunca mais chegou ao porto. Até o dia 24, as estações de rádio enviaram chamados contínuos, numa busca incessante. No dia 24 foi que se teve a primeira notícia. Nesse dia, as bases aliadas captaram uma mensagem do petroleiro Trocas. O comunicado dizia que resgatara das águas vinte e cinco marinheiros alemães, que se encontravam em um bote, à deriva. Os alemães declaravam pertencer a uma unidade de guerra que havia posto a pique um cruzador inglês. Outros náufragos alemães foram salvos nos dias seguintes: o navio de carga Koolinda recuperou uma lancha com trinta marinheiros; o Aquitania, uma balsa com vinte e seis e o canhoneira Yarra, por fim, uma outra lancha, com setenta e dois. Outros marujos alcançaram por seus próprios meios o costa da Austrália. Ao todo, trezentos e quinze homens do navio alemão foram salvos. Todos, em geral, se limitaram a obedecer as ordens recebidas de não fornecer aos ingleses dados que lhes pudessem ser de utilidade em sua campanha e, simplesmente, declararam que sua nave era um mercante armado que havia naufragado em combate com um cruzador britânico. E, apesar da informação parecer realmente fantástica (era, de fato, difícil admitir que um mercante armado fosse capaz de destruir um cruzador), os ingleses tiveram que aceitar, muito a contragosto, o fato como real.
 
O Sydney não era um cruzador lançado recentemente no conflito. Tampouco sua tripulação estava em missão de treinamento, nem era formada por novatos. A belonave, que entrara em serviço em 1935, deslocava 6.830 toneladas e dispunha de um armamento de oito canhões de 152 mm, oito antiaéreos de 102, oito tubos lança-torpedos e numerosas metralhadoras. A blindagem era considerável e sua velocidade alcançava 32 nós. Da sua capacidade de combate já havia dado boa prova em 1940 quando, junto com cinco caça-torpedeiros, enfrentara dois cruzadores leves italianos, avariando um deles, o Colleoni. Os náufragos haviam dito, indiscutivelmente, a verdade. O Sydney fôra destruído e somente meses mais tarde, na praia da Ilha Chritsmas, a 1.760 km do local da batalha, foi encontrado o cadáver de um marinheiro inglês que trazia bordadas em seu uniforme as palavras "H. M. A. S. Sydney".
 
Duas semanas depois do desaparecimento do Sydney, o Comando Supremo alemão deu publicidade a um comunicado cujo texto dizia: "Nas proximidades da costa da Austrália, travou-se uma batalha naval entre o cruzador auxiliar alemão Kormoran e o cruzador australiano Sydney. Sob o comando do capitão de fragata Detmers, o cruzador auxiliar alemão superou o inimigo, muito superior em armamento e velocidade, e o pôs a pique. O Sydney, de 6.830 toneladas, afundou com toda a tripulação de 42 oficiais e 603 marinheiros. Em vista das grandes avarias sofridas no combate, o barco alemão teve que ser abandonado, depois do triunfo. Grande parte da tripulação foi salva e chegou à costa da Austrália".
 
O Kormoran fôra construído em Kiel, em 1938, e destinado ao tráfego com a América, sob o nome de Steiermark. Deslocava 9.400 toneladas e media 157 metros de proa a popa. Os motores diesel de que era provido, lhe proporcionavam uma potência de 16.000 HP e uma velocidade de 18 nós. Tecnicamente, era um barco moderníssimo.
 
Antes da eclosão da guerra, a marinha alemã decidira transformar seis velozes barcos mercantes em naves de guerra. Essas seis unidades constituiriam a primeira série de navios corsários destinados a interceptar a navegação aliada. Uma segunda série foi feita, mais tarde, com a maior presteza. Desta última fazia parte o Steiermark, rebatizado Kormoran. E este não era o seu único nome. Segundo a denominação em código do comando alemão, o barco era conhecido como Schiff 41 e, também, HSK 8. Os ingleses, para distingui-lo dos demais corsários, o chamavam Raider G".
 
A transformação anteriormente citada não consistia somente em instalar a bordo alguns canhões e tubos lança-torpedos; era necessário ainda adaptar o navio às novas condições das atividades que desempenharia. De fato, o barco teria que passar muitos meses longe de suas bases, sem possibilidades de receber abastecimentos nem combustível. Por outro lado, deveria estar em condições de dissimular o seu aspeto e poder ser transformado, rapidamente, "noutra" nave. Para tal fim, transportariam chaminés, mastros e estruturas de armação fácil, capazes de fazer variar o aspeto exterior.
 
No Kormoran foram montados seis canhões de 150 mm, quatro metralhadoras antiaéreas de 37 e outras tantas de 20, além de quatro lança-torpedos de 533 mm. Embarcaram-se, também, dois hidraviões de reconhecimento, uma lancha-torpedeira e 420 minas. A autonomia da nave era de 120.000 quilômetros, o que lhe permitia dar três vezes a volto ao mundo a uma velocidade de 10 nós.
 
A tripulação, cuidadosamente selecionada, ignoraria, até chegar ao alto mar, a verdadeira identidade e missão do navio. Somente o capitão tinha conhecimento das ordens.
 
Numa nevoenta noite de início de dezembro de 1940, o Kormoran abandonou Gotenhaven (a antiga cidade polonesa de Gdynia) e enfrentou mar aberto. O navio partiu apresentando o aspecto do cargueiro soviético Molotov.
 
O falso Molotov navegou rumo ao norte e a 13 de dezembro atravessou o estreito que separa a Islândia da Groelândia, seguindo a rota cumprida, cinco semanas antes, pelo encouraçado Admiral Scheer. Depois, rumou para o sul e se dirigiu para o oceano Atlântico.
 
A 6 de janeiro de 1941 o Kormoran fez sua primeiro vítima: o navio-transporte grego Antonis, nas proximidades das Ilhas de Cabo Verde. Foi a prova de fogo para o HSK 8 e tudo se desenrolou perfeitamente. O corsário se aproximou lentamente do navio aliado e depois, descobrindo os canhões, içou a bandeira de guerra da Kriegsmarine. Imediatamente, foi dada a ordem de abandonar o navio e não utilizar a instalação de comunicações. Minutos mais tarde, com a tripulação do barco grego em seus botes salva-vidas, alguns canhonaços foram suficientes para afundar o navio.
 
Doze dias mais tarde, o Kormoran encontrou em seu caminho o petroleiro britânico British Union, afundando-o nas águas do Atlântico central. O barco aliado ainda conseguiu emitir pedidos de socorro, porém, o Kormoran, escapou habilmente à perseguição. O cruzador auxiliar britânico Arawa, que, na escuridão da noite, chegou a divisar os clarões dos canhões do Kormoran, quando afundava sua segunda presa, lançou-se em seu encalço, sem resultado positivo.
 
Em seguida, já nas proximidades da costa do Brasil, o Kormoran realizou uma dupla caçada afortunada: o petroleiro Afric Star e o navio-transporte Eurylochus, que conduzia aviões para a frente de combate da África. Também estes dois barcos conseguiram emitir pedidos de socorro, antes de serem afundados pelos disparos do corsário alemão. Os tripulantes de ambos os barcos, aliás, foram transportados, na qualidade de prisioneiros, ao barco alemão Speewald. Neste, os cativos foram conduzidos à França e ali desembarcados.
 
O comando inglês, a esta altura dos acontecimentos, decidiu enfrentar a situação com uma tentativa de dar caça ao corsário inimigo. Enviou um cruzador pesado para patrulhar a rota das naves aliadas na altura de Serra Leoa, na África, e outro cruzador pesado para percorrer a zona na qual foram afundados os dois últimos barcos.
 
Enquanto isso, o Comandante Detmers conseguiu afastar-se da zona perigoso e, longe dali, encontrou-se com outros barcos alemães, o barco-cisterna Nordmark, que o abasteceu de combustível, o transporte Duquesa e o corsário Pingüim. É difícil compreender como, com toda a severa vigilância exercida pelos barcos de patrulha e pelos aviões aliados, os navios alemães puderam reunir-se, assim, quase sem nenhum risco. Porém, temos que concluir que a vastidão do oceano e a habilidade indiscutível dos capitães alemães, tornaram passíveis tais encontros.
 
Em meados de março, o Schiff 41 reabasteceu de combustível o submarino U-124 e, mais tarde, encontrou-se com o encouraçado Scheer; em seguida, reabasteceu de combustível aos submersíveis U-105 e U-106 e, por fim, a 22 de março, afundou o petroleiro aliado "A nita".
 
Três dias mais tarde, 25 de março, o Kormoran capturou o petroleiro britânico Canadolite, de 11.300 toneladas e transferiu para bordo do mesmo uma tripulação que deveria conduzi-lo a Bordeaux, na França.
 
Poucos dias depois ocorreu um novo encontro com petroleiros alemães e com o corsário Atlantis. Em seguida, duas novas vítimas aumentam a lista dos sucessos do Kormoran: uma delas é o transporte inglês Craftsman, carregado com redes de aço destinadas a proteger o porto da Cidade do Cabo.
 
A esta altura dos acontecimentos, o Comandante Detmers, do corsário alemão, julgou prudente uma mudança de local para continuar as operações. De fato, o setor do Atlântico, muito patrulhado, se convertera numa zona extremamente perigosa, que podia em pouco tempo transformar-se em armadilha mortal. Por isso, Detmers decidiu aproar para o oceano Índico, disfarçando o barco que, a partir daquele momento, assumiu o aspecto de um cargueiro japonês, o Sakito Maru. Os marinheiros, trabalhando arduamente, pintaram todo o barco de preto, e inscreveram, com letras garrafais, o novo nome do navio. Também grandes bandeiras japonesas foram pintadas nos costados do barco. Nas quatro semanas seguintes, nenhum navio inimigo foi avistado e apenas ocorreu um encontro com outra nave alemã, o transporte Alstertor.
 
Detmers resolveu trocar novamente o aspecto do Kormoran que, desta vez, se transformou no mercante Kinko Maru, também japonês. Um momento em que a situação assumiu um aspecto grave para o corsário foi quando surgiu um cruzador auxiliar britânico, que, navegava com as luzes apagadas. O encontro, contudo, não se produziu e os barcos se afastaram sem combater.
 
Um perigo maior se apresentou a 24 de junho, poucas horas antes da projetada colocação de minas na entrado do porto de Madras. Também nesta oportunidade foi um cruzador auxiliar, o Canton. Este, porém, obedecendo as instruções que lhe ordenavam evitar incidentes com barcos do Sol Nascente, evitou o encontro com o que acreditou ser um navio japonês. Porém enviou, imediatamente, uma mensagem cifrada perguntando se o Kinka Maru era esperado em Madras. Afinal, enquanto no Kormoran a tripulação se preparava para a batalha iminente, o Canton, inexplicavelmente, se afastou.
 
Dois dias mais tarde, o barco alemão encontra na sua rota duas novas presas: o mercante iugoslavo Velebit e o inglês Mareebo. Os dois navios foram canhoneados e afundados rapidamente
.
A esta altura dos acontecimentos, o Kormoran atingiu já sete meses de campanha ininterrupta. Os motores do barco que até aquele momento corresponderam perfeitamente necessitam de indispensáveis reparos. E Detmers, desejando manter sua nave em perfeitas condições de navegação, decidiu escolher uma afastada região do Índico para proceder a uma minuciosa revisão geral. Antes de paralisar suas andanças, o comandante alemão ordenou uma nova transformação do navio, que assumiu a aparência do Straat Malakka, mercante holandês.
 
Em seguida; o barco alemão foi submetido a uma rigorosa revisão dos seus motores para, logo depois, reiniciar suas tropelias.
 
A primeira presa do novo período e, ao mesmo tempo, a última de sua existência de corsário, foi um mercante grego, detido e afundado no dia 10 de setembro. Depois, em busca de novas vítimas, iniciou um prolongado cruzeiro através do Índico, sem resultados positivos. Detmers, uma vez mais, decidiu mudar a zona de suas atividades, e aproou rumo à Austrália.
 
O começo do fim
 
Por volta das quatro da tarde de 19 de novembro de 1941, o HSK 8 navegava a 10 nós de velocidade, a 300 km a oeste da Austrália, rumo ao norte. Os vigias, atentos, exploram o horizonte com potentes binóculos. De súbito, um dos homens grita: "Nave à proa, um pouco a estibordo!" Apesar do rumo de ambos os navios, quase paralelo e em sentido oposto, os alemães percebem que têm diante deles a inconfundível silhueta de um cruzador inimigo. E necessário apelar para a astúcia e assim age Detmers. O comandante alemão ordena ao seu timoneiro que altere a rota e comece a afastar-se do navio inimigo, aumentando gradualmente a velocidade do barco. Porém, são percebidos pelo barco aliado, que, por sua vez, altera a sua rota e se dirige para o Kormoran, acelerando a marcha. A velocidade do corsário passa de 10 a 15 nós e a do cruzador de 20 para 25. A caçada se inicia.
 
Detmers, marujo experiente e combatente astuto, pensa rapidamente: "O que faria um barco realmente holandês nessa situação?" e sem hesitação, ordena ao seu radiotelegrafista que lance pedidos de socorro. Estes cortam os ares imediatamente: "... RRRR Straat Malakka... Estamos sendo atacados por uma nave corsária inimiga. Nossa posição: 26° 33' sul, 111° 00' leste". Os vigias, enquanto isso, estudam nervosamente a atitude do cruzador inimigo. O Sydney, sem diminuir a velocidade, já está bem perto. Da ponte da belonave aliada, um sinaleiro começa a agitar suas bandeiras: "Exibam o prefixo". Detmers, procurando ganhar tempo, manda ascender a um dos mastros os letras que caracterizam o barco holandês internacionalmente: "PKQI".
 
No Sydney, contudo, não é aceita aquela informação precária. E reiteram: "Exibam o prefixo em código". Trata-se de um código que todos os navios aliados conhecem e o Kormoran logicamente, desconhece.
 
Nesse momento, a distância que separa os dois barcos é de 1.200 metros. Detmers compreende que chegou o momento de arriscar tudo contra o Sydney. E sabe que os instantes são preciosos, diante das negras bocas dos canhões do cruzador australiano.
 
Uma ordem partiu dos lábios de Detmers: "Abaixo as falsas estruturas! Abram fogo! Lancem os torpedos!"
 
Um segundo mais tarde, o estrépito das falsas paredes caindo une-se com o estrondo dos três canhões de 150 mm rompendo fogo. As metralhadoras de 37 mm, também, varrem com seu fogo, a nave inimiga. E no mastro mais elevado, a bandeira de guerra da Kriegsmarine, se eleva rapidamente.
 
Dois torpedos são lançados e começam sua vertiginosa corrida para o Sydney. O cruzador australiano, surpreendido por esse furacão de fogo que não tardou mais que dez segundos para desencadear-se, recebeu a descarga em cheio. A resposta, porém, não se fez esperar. Os canhões do Sydney vomitam fogo, atingido, à queima-roupa, o Kormoran no setor do depósito de combustível. Ao mesmo tempo, um torpedo do barco alemão explode no cruzador inglês, colocando fora de combate uma de suas torres de 152 mm. A batalha atinge assim uma extrema violência. A curta porém intensíssima refrega começa a se definir quando o Kormoran se vê, de súbito, envolvido numa densa nuvem de fumaça negra e as chamas rubras começam a lamber o convés. Os marujos alemães, abandonando seus postos, dirigem-se para os botes salva-vidas, num salve-se quem puder. O corsário alemão abandona a luta, derrotado. Porém, não sem antes arrastar consigo o inimigo. O Sydney, de fato, permanece um instante à deriva, para depois explodir com incrível violência; começa então a naufragar...
 
O desigual combate se conclui com o afundamento das duas naves. E o Kormoran ficou sendo protagonista de um episódio incrível: o de um mercante armado que luta e afunda um cruzador inimigo.
 
 
Anexo
 
Bases
As bases de submarinos mais importantes na Alemanha e nos países ocupados, eram:
1) Hamburgo, na Alemanha.
2) Brest, na França.
3) Lorient, na França.
4) Saint Nazaire, na França.
5) Bordeaux, na França.
6) Le Havre, na França (foi, eventualmente. utilizado como base de submarinos)
7) La Pallice, na França.
8) Trondheim, na Noruega.
 
 
Fogo!...
Era outono de 1944 e o submarino alemão flutuava num mar sereno sob um céu límpido. A visibilidade era boa.
- Barco a vista! - gritou o vigia. - Submergir! - ordenou o capitão.
O "U" fechou suas escotilhas e mergulhou. Os ruídos começaram a se tornar opacos, adquirindo um som peculiar. O comandante tirou o barrete e pregou o olho no periscópio. Pouco a pouco, o diminuto ponto descoberto pelo vigia foi-se definindo. Eram três destróieres que avançavam, agora abrindo em leque a formação. Provavelmente, haviam avistado o submarino.
O comandante defrontava-se com duas alternativas: travar batalha ou fugir simplesmente. Não foi necessário pensar muito. Com os destróieres nos calcanhares, poucas eram as possibilidades. Decidiu atacar.
- Leme a bombordo! Força máxima! ... Toda velocidade nesse rumo! Escolheu o destróier do centro. Os navios ainda não estavam suficientemente separados e uma boa explosão no meio da formação poderia atingir a todos.
- Prontidão, torpedo um! ... - em seguida - Proa, disparar! Fogo!
O submarino pareceu apenas balançar suavemente. O navio do centro voou em pedaços. E o "U" sofreu, então, uma violenta sacudidela.
O capitão voltou ao periscópio. Um dos destróieres dirigia-se em linha reta contra ele. O outro, enquanto isso, navegava obliquamente.
- Toda velocidade!... Torpedo dois!... - O comandante segurou a ordem de fogo; esperou que o barco se aproximasse mais ainda. A tensão era tremenda. Se nesse momento explodissem cargas de profundidade estariam perdidos. Porém, aparentemente, também o capitão do destróier queria aproximar-se mais.
-Fogo! - bradou o alemão.
O impacto atingiu a popa da nave aliada. No submarino não havia tempo para averiguar se o impacto era mortal.
Rapidamente, buscaram as profundezas para proteger-se.
O destróier desprendia fumaça e sua marcha era cada vez mais lenta. O "U" continuou algum tempo ainda mergulhado até que, afinal, o capitão deu ordem para subir. Quando emergiram, encontraram o mar sereno sob um céu límpido. Era outono de 1944 e a visibilidade estava muito boa.
 
 
Déficit de submarinos alemães
Meses
Programados
Produzidos
1944
 
 
Fevereiro
1
 
Março
3
 
Abril
6
1
Maio
11
1
Junho
16
3
Julho
19
6
Agosto
28
11
Setembro
37
19
Outubro
42
22
Novembro
42
29
Dezembro
40
36
1945
 
 
Janeiro
42
24
Fevereiro
44
16
Março
46
12
Abril
46
 
 
No presente quadro podemos apreciar a normalização da fabricação de submarinos (tipos 21 e 23) até dezembro de 1944, e, logo após, sua rápida queda nos quatro meses seguintes.
 
 
Onde nasciam os submarinos
A Alemanha reativara a produção de submarinos a partir de 1935. Os progressos técnicos acumulados durante a Primeira Guerra Mundial desenvolveram-.se com algumas interferências, devido ao Tratado de Versailles.
Ao começar a Segunda Guerra Mundial, os alemães possuíam sete grandes estaleiros para a fabricação de submarinos. Os principais eram:
1) Estaleiro Howsldswerke und Blohm-Voss, de Hamburgo.
2) Estaleiro Wesser und Deschimag, de Bremen.
3) Estaleiro Vulkan, em Dantzig.
4) Estaleiro Neptun, em Rostock.
Existiam estaleiros menores, adaptados depois do início da guerra, cuja produção era menor, em:
1) Emden
2) Wilhelmshaven
3) Flensburgo
4) Kiel
5) Lubeck
6) Stettin
No interior da Alemanha havia indústrias menores que fabricavam peças avulsas e instrumental para submarinos. Estas fábricas enviavam sua produção aos estaleiros da costa e achavam-se situadas nos seguintes lugares:
1) Essen
2) Dusseldorf
3) Mahnheim
4) Karlsruhe
As fábricas de motores marítimos e de acumuladores especiais constituíam outra contribuição importante. As principais fábricas de motores marítimos, na época, eram:
1) Man em Augsburgo, que fabricava a metade dos motores Diesel utilizados nos submarinos.
2) Humboldt-Deutz und Diesel, em Colônia, seguindo-se em ordem de importância à anterior.
3) Burmeister-Wain, em Compenhague, incorporada a força, quando a Dinamarca foi ocupada.
Quanto às fábricas de acumuladores, destacavam-se:
1) Acfa, em Hannover.
2) Hagen, no Ruhr.
3) Uma fábrica instalada em Viena, Áustria.
4) Uma fábrica instalada em Posen, Polônia.
Estas duas últimas fábricas foram instaladas durante a guerra, e logo após a ocupação destes territórios.
 
 
A versão de King
Transcrevemos declarações do Almirante Ernest King, chefe das Operações Navais dos Estados Unidos, numa entrevista à imprensa: "Nunca se viu tantos homens cruzando os mares como durante a atual guerra. Os oceanos e os mares, as águas cercadas de gelo do Ártico e as vastas extensões pontilhadas de ilhas do Pacífico Sul tiveram que ser consideradas como zonas de guerra. Ao deflagar a guerra no Pacífico, as armadas aliadas se propuseram proteger, para o transporte marítimo, todos os mares. Estabeleceram-se três objetivos: vencer a ameaça submarina alemã no Atlântico; manter os japoneses ao norte das rotas marítimas da Austrália e Nova Zelândia; reabertura das rotas do Mediterrâneo.
Era impossível, ainda, vislumbrar quando se alcançariam esses objetivos.
Os submarinos afundavam barcos diariamente nas águas norte e sul-americanas. As perdas, devido a esses ataques, eram devastadoras num setor do Atlântico onde não se conseguia dar aos barcos a devida proteção aérea provinda de bases terrestres. A luta foi, a princípio, encarniçada. Somente a marinha dos Estados Unidos perdeu mais de quinze mil homens e a cifra dos feridos chegou a vinte e cinco mil. Em meados de 1943, as forças navais haviam perdido um encouraçado, cinco porta-aviões, nove cruzadores, quarenta e dois destróieres, dezessete submarinos e sessenta e seis barcos de outros tipos; um total de 140 navios de guerra. Não foram menores as perdas das forças navais das outras nações aliadas no Atlântico e no Mediterrâneo. As perdas foram sérias, mas desde que pusemos em ação o plano conjunto para vencer a ameaça submarina, em meados de 1943, calculamos que, em seis meses, foram afundados 150 submarinos alemães, capturando-se grande parte de suas tripulações. A solução que encontramos para o ataque aos submarinos foi o emprego combinado de aviões, navios de guerra e porta-aviões, especialmente um tipo de porta-aviões de tamanho reduzido, de rápida construção.
Com a cooperação para o bem da causa comum de outras repúblicas americanas, estabeleceram-se bases aéreas nas costas norte e sul-americanas, nas ilhas da Inglaterra, e em todos os lugares de onde se pudessem enviar aviões para patrulhar as rotas marítimas do Atlântico. Voando baixo, quase raspando as ondas, os pilotos localizavam os submarinos ou seus rastros e, muitas vezes, conseguiam afundá-los, lançando bombas do ar, ou transmitiam pelo rádio suas posições aos navios de guerra que mais tarde os perseguiam. O pessoal militar e as forças navais dos países americanos prestaram valiosa contribuição à campanha. Em qualquer parte em que os aviões, partindo de bases terrestres, pudessem patrulhar o mar em número suficiente, diminuíam os afundamentos. Os alemães tiveram, por fim, que cessar suas operações submarinas em grande escala nas águas americanas.
O objetivo da campanha submarina de Hitler era evitar que a substancial ajuda dos Estados Unidos em homens e abastecimentos cruzasse o Atlântico.
A prova evidente que esta campanha foi irremediavelmente frustrada, se traduz nos comboios repletos de munições e abastecimentos que chegam intactos à Inglaterra e à Rússia, e no grande número de tropas americanas bem treinadas e equipadas, acantonadas no outro lado do Atlântico. Embora a ameaça submarina, de certo modo, perdure enquanto durar a guerra, não será exagerado dizer que a batalha do Atlântico está quase terminada."
 
 
A segunda oportunidade
Graham era veterano na luta anti-submarina, ou pelo menos esse era um dos grandes problemas da sua vida há quatro anos. Ao se iniciar a guerra, fôra nomeado comandante da fragata Anubis, uma nave recém-saída dos estaleiros britânicos. Sua vida como comandante teve a duração da vida da fragata; escoltava um comboio no Mar do Norte quando um submarino alemão a afundou.
Graham levou alguns meses recuperando-se em um hospital e esperando novo destino. O Almirantado tornou a confiar-lhe uma fragata, que Graham batizou novamente de Anubis.
Em meados de 1944 navegava novamente pelo Mar do Norte escoltando um comboio. Havia um certo clima familiar para o comandante, o que constituía, ao mesmo tempo, um motivo de temor e de desafio.
O radar entrou em contato com o submarino lá pelas quatro da tarde. Tentaram precaver-se contra o ataque, porém, uma hora mais tarde, dois cargueiros leves voaram pelos ares quase ao mesmo tempo. Graham perdeu então, a noção que leva os homens comuns a distinguir o dia da noite, e o descanso do trabalho; para ele, o tempo era igual e sem importância, pois somente abrigava uma idéia: apanhar o submarino.
Subia e descia várias vezes; o operador do radar chegou a considerá-lo um membro qualquer da tripulação. Em nenhum lugar do navio demorou-se mais de vinte minutos. O submarino se afastava lentamente e, por volta das oito da noite, perderam contato com ele.
Graham ficou desesperado, porém, precisava conter-se, para encontrar o submarino: paciência, intuição e concentração; por enquanto só paciência. Na madrugada do dia seguinte, Graham estava esgotado; foi recostar-se, mas virava e revirava em seu beliche. Finalmente, acordou o médico e lhe pediu um sonífero.
-Isto o fará dormir por algumas horas - disse-lhe o doutor Wilson dando-lhe um comprimido branco. - O senhor está muito esgotado. Graham pegou o comprimido e o copo de água que lhe estendia o médico, e ia beber quando falaram pelo alto-falante: - Capitão, entramos novamente em contato com o submarino!...
Graham cuspiu violentamente a pílula e devolveu o copo para o doutor. - Daqui a pouco vou poder dormir! - gritou, saindo às carreiras do camarote.
O Anubis começou uma caça implacável. Em poucos minutos semeou seu trajeto com bombas de profundidade. Porém o submarino não dava sinal de vida. Por um momento, pensaram que escapara novamente. Graham praguejou durante as quatro horas seguintes até que, com sol a pino, o "U" surgiu na superfície.
- Aos canhões! - bradou o capitão.
A tripulação do submarino tentou defendê-lo, mas uma descarga bem na linha de flutuação demonstrou que o "U" estava perdido. Começaram a atirar-se às águas.
Sujos de petróleo e esmorecidos de frio foram recolhidos, um por um, pelos homens do Anubis.
Era a primeira vez que Graham via marinheiros alemães de perto. Dirigindo-se ao seu imediato, comentou com um quê de nostalgia: "Fazem-me lembrar os tripulantes de minha primeira fragata quando fomos recolhidos por um cruzador americano...
 
 
O tubarão e os peixes pequenos
Em certos lugares do Atlântico, apesar da proteção das escoltas, as travessias eram sumamente perigosas; as perdas causadas pelos submarinos continuavam sendo vultosas. A solução do problema foi devida, em parte, a uma mudança de orientação na construção de porta-aviões. Ao começar a guerra, os únicos porta-aviões aliados eram gigantes do mar, com cobertas de vôo medindo mais de 200 metros de comprimento. Mas o número disponível para patrulhar grandes extensões do Atlântico era limitado, visto que eram necessitados com urgência no Pacífico, e se requeria anos para construir-se uma frota desses gigantes.
Começou-se, então, a estudar a possibilidade de construir-se porta-aviões menores e rápidos, com tripulações de aviões navais aperfeiçoados e que pudessem decolar em pistas reduzidas. Um dos recursos foi fabrica-los tendo por base os cascos de navios mercantes comuns. Por outro lado, aperfeiçoaram-se notavelmente os processos de construção. Nos Estados Unidos começaram a ser construídos em grandes quantidades. Os porta-aviões pequenos cumpriram então, o papel de navios-escoltas, atacando os submarinos que se encontravam fora do alcance dos aviões com bases na costa. Uns cinqüenta, integralmente fabricados nos estaleiros americanos, ganharam alto-mar em comboios, e seus aeroplanos, com a ajuda dos destróieres, diminuíram em muito as perdas no Atlântico.
Um desses navios, que protegia um comboio no Atlântico, atacou com seus aviões durante a travessia seis submarinos. Dois foram a pique e outros quatro fugiram avariados.
O primeiro ataque ocorreu ao amanhecer. Um piloto lançou bombas de profundidade contra um submarino que avistara na superfície, mas não pôde constatar se o afundara ou avariara.
Nos dias seguintes, dez ataques se efetuaram. No primeiro dia, pela manhã, um aviador atingiu em cheio um submarino, que permaneceu à deriva durante uma hora, até que foi ao fundo; mas não havendo por perto navios de guerra que atestassem o afundamento, não pôde ser considerado oficialmente destruído.
Dois mais foram a pique antes do meio-dia, e, à tarde, outro mergulhou, seriamente atingido pelas cargas de profundidade.
A tripulação jogou-se ao mar e foi recolhida por um navio de guerra aliado. No dia seguinte, outro explodiu, salvando-se o capitão e dezessete tripulantes. Nesses combates, o porta-aviões perdeu cinco aviões, porém o comboio chegou intacto ao seu destino.
 
 
Cirurgia no mundo silencioso
"Agora estão dando éter a ele" sussurrava-se no compartimento dos torpedos da popa. "Já está começando a dormir! Está prontinho para ser aberto!"
A cara de um marinheiro apareceu: - Procure manter-se na horizontal, Jake - disse ao encarregado do leme de imersão de proa -. Já está cortado. Estão fuçando agora!
Os que "fuçavam" estavam reunidos em torno de uma mesa, com os braços enfiados em pijamas, vestidos de trás para diante. Dos seus rostos cobertos, a única coisa que se vislumbrava era a expressão ansiosa dos olhos. E o que procuravam era, nada mais, nada menos, que um apêndice, em má hora inflamado, de Dean Rector, o hidrofonista de bordo. Completara dezenove anos na véspera; e como presente de aniversário, aparecera aquela dor aguda e insuportável.
Num instrumento parecido com um grande relógio estava marcada a profundidade em que o submarino se encontrava. Sobre suas cabeças, nas águas inimigas, passavam e repassavam, com as hélices barulhentas largando uma esteira de espuma, os caça-submarinos japoneses.
Não se podia sequer pensar num médico da marinha num raio de milhas e milhas ao redor. Que fazer? Para evitar que o apêndice supurasse não havia outro remédio senão operar Rector. E isso tinha que ser feito por eles mesmos, seus próprios companheiros de trabalhos e perigos, os próprios tripulantes do submarino.
O "operador-chefe" foi Wheeler Lipea, sargento de vinte e três anos, do Corpo de Saúde, que passara três anos no Hospital da Marinha de Filadélfia, onde tomava conta de um cardiógrafo. Uma ou duas vezes, por mera curiosidade, viu os cirurgiões do hospital na faina de extrair um apêndice. A anestesia era mais complicada. Sob a superfície, a pressão existente no interior do submarino é superior à atmosférica. Daí a necessidade de absorver maior quantidade de éter.
Os cirurgiões improvisados não sabiam quanto tempo ia durar a operação, nem se haveria éter suficiente para manter a anestesia até o final. Escolheram a mesa da sala dos oficiais, sala que nos submarinos tem as dimensões de uma saleta de carro-dormitório. De um lado e de outro, existiam bancos presos à parede.
A mesa ocupa todo o compartimento. É preciso entrar já com as pernas dobradas como se fosse sentar. A mesa tinha o comprimento estritamente necessário para que o operado não ficasse com os pés balançando.
Não creio que jamais se haja realizado uma operação cirúrgica mais democrática que aquela. Todo mundo, desde o oficial de curso até o cozinheiro, desempenhou nela um papel consciencioso.
O cozinheiro adaptou a máscara para a anestesia; um coador de chá invertido, coberto de gase. O cirurgião teve por ajudantes, oficiais superiores em idade e hierarquia. O anestesista foi o Tenente Franz Hoskins, oficial de transmissões.
Antes de levar Rector à sala de operações, o comandante do submarino, Tenente-de-Fragata Ferrall, de Pittsburgh, pediu a Lipes que falasse com ele:
- Olha, Dean - disse Lipes -. Eu nunca fiz uma operação antes... Mas tenho que te prevenir que se não te operamos, você será um homem ao mar, de qualquer maneira... O que é que você diz?
- Compreendido, doutor - respondeu o moço - Pode abrir...
Era a primeira vez na sua vida que Lipes ouvia alguém chamá-lo de "doutor".
O operador e seus ajudantes colocaram suas máscaras de gase. Os mecânicos amarraram bem os seus pijamas, ao contrário. O instrumental estava muito longe de ser o mais apropriado para uma verdadeira operação cirúrgica. O bisturi, por exemplo, não tinha cabo. Porém, os marinheiros de submarinos são, em geral, gente habilidosa e improvisadora. Na farmácia portátil havia alguns hemostatos, essas pinças que se usam para obturar vasos sanguíneos - e o primeiro maquinista transformou um deles num cabo para o bisturi.
Moeram algumas pastilhas de sulfanilamida para usá-las como anti-séptico. Porém, como manter separados os bordos do corte depois de praticar a incisão? Como arranjar os afastadores que os cirurgiões utilizavam para esse fim? Virou-se e revirou-se a farmácia. Nada havia ali que, mesmo remotamente, pudesse resolver o caso. Apelou-se então para o arsenal da cozinha. De quem foi a idéia luminosa? Nunca se soube, mas o fato é que alguém apareceu com umas colheres dobradas em ângulo reto que serviram como afastadores.
E para esterilizar? Os torpedos então funcionaram como algo mais que mensageiros da morte e do extermínio. Extraiu-se álcool do mecanismo de explosão de um deles. Colocaram também a ferver uma boa panela de água. Chegou então o momento da operação. Rector, intensamente pálido, deitou-se na mesa. Mergulharam umas luvas de borracha no álcool do torpedo. Depois colocaram-nas no cirurgião. Eram um pouco grandes. As pontas dos dedos ficaram frouxas. Um dos circunstantes não pôde agüentar uma comparação: - Estás parecendo o Mickey Mouse. - Lipes esboçou uma careta à guisa de resposta, por trás da máscara. Olhou seus ajudantes. Fez um sinal com a cabeça. Hoskins cobriu a cara de Rector com a máscara de anestesia.
O cirurgião, valendo-se do antigo processo manual de medida, apoiou o dedo mínimo no umbigo de Rector e o polegar na ponta do ilíaco ântero-superior. Onde o dedo indicador bateu, era ali o ponto - que os médicos chamam de McBurney - em que devia ser feita a incisão.
Ao lado de Lipes estava o seu primeiro ajudante, o Tenente Norwell Ward, cuja missão consistia em colocar as colheres como afastadores, à medida que Lipes fosse penetrando nas camadas musculares. Ao Tenente Charles Maning coube o papel que, nas salas de operações recebe a denominação de "enfermeira de salão". Era responsável pelos pedaços de algodão e gases esterilizados e devia providenciar, quando necessário, o álcool dos torpedos e a água fervida. O Comandante Ferral se encarregava da "contabilidade". Teria que contar cuidadosamente os chumaços de gase e as colheres que iam sendo colocadas no paciente.
Vinte minutos mortais demorou Lipes para encontrar o apêndice.
- Já explorei todo um lado do ceco - murmurou - Vou explorar o outro, agora.
A guisa de boletim médico, um rosário de murmúrios transmitia os detalhes da operação ao compartimento dos motores e aos alojamentos da tripulação. - O doutor já explorou um lado de não sei que, e vai agora começar do outro.
Depois de novas pesquisas, Lipes murmurou: - Acho que achei agora... Está escondido atrás do ceco.
A partir desse instante, a vida do seu companheiro estava em suas mãos. - Mais um par de esponjas!
"Dois chumaços de gase às 14h 45m", anotou escrupulosamente o comandante no seu caderninho.
- Mais lanternas... Outra lâmpada! - ordenou Lipes. O rosto do operado começou a contrair-se.
- Mais éter! - comandou o "doutor". Hoskins parecia contrariado. O éter estava acabando. Teve que empapar de novo a máscara. O pessoal que fazia a operação começava a se sentir enojado pelas emanações do anestésico. Afinal, o cirurgião fez um sinal para que lhe dessem a agulha já preparada com "catgut", previamente tratado com ácido crômico para facilitar a reabsorção em vinte dias. Um após outro, foi extraindo os pedaços de gase. Uma a uma, foram reaparecendo as colheres dobradas. O comandante tocou Lipes no ombro e mostrou o caderninho: faltava uma colher. Lipes introduziu de novo a mão no corte, retirou a colher e fechou definitivamente a ferida. Cortou o fio com uma tesourinha de unhas. Naquele preciso instante, caía sobre a máscara do anestesiado a última gota de éter. Transportaram Rector para um beliche. Ao fim de meia hora, ele abriu os olhos e exclamou: - Ainda estou lá embaixo...
Duas horas e meia levaram os improvisados médicos para realizar uma operação que é realizada em quarenta e cinco minutos.
-Bem... Não se tratava de um desses apêndices de "cheguei, vi e cortei" - diria depois Lipes, como que se desculpando pela insólita demora. Treze dias depois estava Rector, de novo, às voltas com seus hidrofones. E, num dos recantos do submarino, numa garrafinha, num vaivém constante, começava a se enrugar e a perder a cor, apesar da sua histórica e singular glória, o primeiro apêndice extirpado pelas mãos do homem, no fundo de águas infestadas de inimigos.
Esta nota. escrita por George Weller do "The Chicago Dally News", recebeu, em 1943, o prêmio de melhor reportagem do ano.
 
 
 
 


100.000 japoneses cercados em Rabaul

Ofensiva Aliada no Pacífico

100.000 japoneses cercados em Rabaul
Luta na Nova Guiné - Ataque a Lae
Luta na Nova Bretanha - Desembarque em Cabo Gloucester


Enquanto o avanço das forças americanas se desenvolvia no arquipélago das Salomão, sob a condução do Almirante Halsey, na Nova Guiné as tropas aliadas, seguindo as diretivas do plano traçado por MacArthur, iniciaram o seu deslocamento para o norte. Os objetivos destes dois movimentos (nas Salomão e em Nova Guiné) consistiam em eliminar o grande reduto japonês de Rabaul, situado na ilha de Nova Bretanha. O avanço convergente permitia às forças aliadas aproximar suas unidades aéreas, até colocar Rabaul dentro do seu raio de ação. A base japonesa seria então submetida a bombardeios devastadores.

Na zona da Nova Guiné, o objetivo principal era a conquista das posições japonesas localizadas no golfo e na península de Huon, situados frente à Nova Bretanha. Uma vez conseguido o controle dessa região, as forças americanas poderiam lançar-se ao assalto desta última ilha. Para cobrir o avanço para Huon e dar, ao mesmo tempo, apoio aéreo às operações que o Almirante Halsey realizava nas Salomão, decidiu-se ocupar em primeiro lugar as pequenas ilhas de Woodlark e Kiriwina, que se achavam convenientemente situadas, para nelas construir-se aeródromos de utilidade incontestável nas ações previstas.

Apesar da ocupação dessas ilhotas não encontrar oposição inimiga, pois, ali não existiam forças japonesas, a operação constituiria uma importante experiência destinada a comprovar a efetividade das técnicas de desembarque que seriam utilizadas posteriormente.

O desembarque nas duas ilhas iniciou-se ente 23 e 24 de junho de 1943. Destacamentos avançados de engenharia alcançaram as praias e iniciaram os preparativos para facilitar a chegada do grosso das forças. A 30 de junho, 2.500 soldados desembarcaram em Kiriwina e um número semelhante em Woodlark. Imediatamente iniciou-se a construção de pistas de aterrissagem, que se tornaram praticáveis em meados do mês de julho. A este primeiro “salto” somou-se outro, realizado diretamente sobre a costa da Nova Guiné. Come;cara a marcha rumo à grande base de Lae, no golfo de Huon.

Uma força integrada por 740 homens desembarcou na baía de Nassau. A operação foi levada a cabo em meio a violentíssima ressaca marinha, e a totalidade das embarcações ficaram gravemente danificadas. Os soldados conseguiram, no entanto, chegar à costa, em meio ao temporal. As peças de artilharia, morteiros e quase toda a munição se perderam, tragados pelo mar.

As tropas americanas estabeleceram contato com as japonesas e, sustentando renhidos combates, marcharam para o interior, deslocando-se pela selva, para unir-se a unidades australianas. A aviação aliada, em todos os instantes, prestou apoio aéreo intenso, tanto no campo direto da luta como por meio de incursões contra as forças japonesas localizadas mais ao norte.

Recebendo suprimentos pelo ar, os americanos e australianos avançaram gradualmente em direção a Lae. No caminho para essa base interpunha-se outro grande reduto japonês: o de Salamaua. MacArthur planejara deixar de lado este último reduto, franqueando-o pelo mar, para evitar um choque frontal com os japoneses. Desembarcaria, então, diretamente em Lae. Simultaneamente com a concretização desse desembarque, faria um lançamento de pára-quedistas, 30 km terra adentro de Lae. Desta forma, os japoneses ficariam com a retaguarda cortada.


Ataque a Lae

Em meados do mês de agosto, os Aliados empreenderam uma ofensiva aérea preliminar ao ataque contra Lae. Era uma ação destinada a assegurar a absoluta supremacia aérea em toda a zona de batalha. Para facilitar a operação, levou-se a cabo, previamente, a construção de um aeródromo avançado, no meio da selva, próximo a Lae. Esta pista, construída com materiais transportados integralmente por via aérea, converteu-se no trampolim dos demolidores ataques contra os grandes aeroportos situados na costa norte da Nova Guiné. Durante o período de construção da base, que seria utilizada pelos caças e como campo de aterrissagem de emergência para bombardeiros médio, a aviação aliada evitou cuidadosamente atacar o grande aeródromo japonês de Wewak e suas pistas satélites de But, Daagua e Borum.

Este estratagema tinha como finalidade alentar os japoneses a concentrar seu poderio aéreo na citada base, a fim de poder ataca-los e destruir a massa da aviação japonesa com um só golpe demolidor. O truque surtiu efeito. Os japoneses reuniram em Wewak e nos aeródromos satélites várias centenas de caças e bombardeiros.

Então, na noite de 16 de agosto de 1943, a aviação aliada lançou-se ao ataque com todos os seus efetivos. As repetidas incursões atingiram o resultado previsto. Mais de 200 aparelhos japoneses foram destruídos em terra, em ataques rasantes. Muitos outros foram derrubados no ar, no curso de ininterruptos e encarniçados combates que se prolongaram até fins do mês de agosto. Nessa data iniciou-se a ofensiva aérea de apoio direto ao desembarque em Lae. Os ataques adquiriram então ainda maior intensidade. Os Beaufighter australianos e os B-25 americanos concentraram suas incursões sobre a navegação japonesa, afundando dezenas de barcaças que conduziam suprimentos e reforços para Nova Guiné. A 2 de setembro, as esquadrilhas de B-25, escoltadas por caças P-38, levaram a cabo uma incursão devastadora contra Wewak. Aproximando-se a uma altura de 30 metros, os Mitchell canhonearam, metralharam e bombardearam os barcos ancorados no porto dessa base. Essa fase do programa ficou, pois, cumprida. O poder aéreo japonês, praticamente, fôra eliminado. Nas primeiras horas da madrugada de 4 de setembro, a força anfíbia de maior envergadura jamais vista até então no sudoeste do Pacífico se aproximou das praias de Lae conduzindo, a bordo de centenas de embarcações, os soldados da 9a Divisão australiana. No ar, as esquadrilhas iniciaram os seus mergulhos para a terra, para pulverizar as defesas inimigas. No mar, paralelamente, os destróieres se aproximaram da costa e descarregaram os seus canhões contra os objetivos inimigos. Às 6h30 chegaram em terra os primeiros soldados australianos. Em corrente incessante foram desembarcando na praias as forças restantes, juntamente com canhões, veículos e equipamentos de todos os tipos. Em menos de quatro horas, mais de 7.800 soldados, com todo o seu equipamento chegaram a terra.

A força aérea japonesa tentou sair ao encontro do ataque aliado, lançando na batalha os aviões que haviam se salvado do ataque prévio. No entanto, essa ação foi frustrada pela atuação das esquadrilhas de caças P-38 e P-47. Alguns bombardeiros de mergulho e torpedeiros, apesar de tudo, conseguiram infiltrar-se através das defesas e atingiram dois destróieres e duas LST, causando muitas baixas entre as tripulações. As embarcações não chegaram, porém a afundar. No dia seguinte, enquanto as tropas australianas consolidavam suas posições, efetivou-se um ataque de pára-quedistas numa planície situada a 30 km a oeste de Lae.

Partindo de suas bases no sul de Nova Guiné, 84 bimotores C-47, transportando 1.700 homens do 503o Regimento e Pára-quedistas americano, com equipamento completo, e depois de sobrevoar a cordilheira que corre através da ilha, aproximaram-se do objetivo escoltados por 100 caças. À frente da gigantesca formação aérea voavam seis esquadrilhas de bombardeiros B-25 providos de oito metralhadoras de 12.7 mm no nariz. Os aparelhos metralharam o terreno, enquanto outros bombardeiros lançavam cortinas de fumaça para acobertar a descida dos pára-quedistas.

Voando a grande altura, numa Fortaleza-Voadora, o General MacArthur presenciou o lançamento realizado com precisão matemática. Às 9h48 os pára-quedistas foram alertados e 20 minutos depois, as luzes vermelhas de alerta foram acesas. Às 10h22, o primeiro pára-quedista se lançou no espaço. Em sucessão rápida, os demais combatentes pousaram em terra, assim como suas armas e equipamentos. Em terra, não encontraram praticamente nenhuma oposição. Diversas patrulhas foram enviadas para estabelecer contato com as tropas australianas, que avançavam pelas matas do interior. Iniciou-se, também, a construção de uma pista de aterrissagem. Foi uma obra realizada com incrível rapidez, facilitada pelas condições do terreno, plano e sem obstáculos. Nas primeiras horas do dia seguinte aterraram no improvisado aeródromo os aviões de transporte que conduziam os soldados da 7a Divisão australiana. Uma semana depois, mais de 300 aviões haviam chegado à pista. Desta forma pôde ser montado um ataque convergente sobre Lae.

Arrasando a resistência japonesa, as 7a e 9a Divisões australianas ocuparam aquele reduto no dia 16 de setembro. A base de Salamaua, situada mais ao sul, fôra ocupada, nesse meio tempo, a 13 de setembro, por forças americanas e australianas.

Prossegue a ofensiva

A rápida queda de Lae e Salamaua permitiu a MacArthur adiantar os planos do avanço posterior rumo ao norte. O próximo “salto” seria dado contra o reduto japonês de Finschhafen, situado na costa da península de Huon.

Um pequeno grupo explorador partiu com a missão de estudar as características da costa, porém sua atuação foi impedida pelos japoneses. Tampouco se conseguiram fotografias aéreas adequadas das praias. Apesar disso, decidiu-se levar adiante o ataque.

O desembarque efetuou-se a 22 de setembro, às 4h45, precedido por um violento bombardeio aeronaval. Os efetivos da 9a Divisão australiana alcançaram finalmente as praias e estabeleceram sem maiores dificuldades uma cabeça-de-ponte. O terreno, felizmente, não oferecia obstáculos. Ao fim de sete horas já estavam em terra firme 5.300 soldados com todo o seu equipamento.

Depois de completar o desembarque de tropas e material, o comboio de assalto levantou âncora e se dirigiu às suas bases no extremo oriental da Nova Guiné. Prevendo a reação da aviação japonesa, os Aliados mantiveram uma forte escolta de caças sobrevoando o comboio. Desta forma, a concentração de navios atuaria como isca para atrair os bombardeiros japoneses. O plano deu o resultado esperado. Poucas horas depois, os radares detectaram a aproximação de uma forte formação inimiga.

Cerca de 30 bombardeiros e 40 caças japoneses integravam a força de ataque. Alguns torpedeiros, que se aproximaram do comboio voando na crista da onda, não puderam ser detectados e se lançaram sobre os barcos. Porém, a barreira antiaérea levantada pelos destróieres da escolta conseguiu abater todos eles, sem que se conseguissem acertar nenhum alvo. No alto, os P-38 conseguiam, por sua vez, uma vitória esmagadora. Em menos de uma hora derrubaram 10 bombardeiros e 29 caças japoneses, contra a perda de apenas três aviões aliados.

Em Finshhafen, as operações se desenvolviam satisfatoriamente, apesar da intensa resistência inimiga. O avanço se tornou extremamente lento, pois os japoneses, com sua costumeira tenacidade, defendiam o terreno palmo a palmo, até serem aniquilados. Os veteranos australianos após 10 dias de luta renhida, conseguiram alcançar o objetivo.

A 2 de outubro, Finschhafen foi ocupada depois de uma feroz batalha corpo a corpo. A ofensiva continuou na península de Huon com um avanço através da selva rumo ao norte. Os australianos marcharam perseguindo os japoneses que se retiravam pelo vale do rio Ramu. Através das montanhas e dos pantanais, as tropas aliadas se deslocaram com dificuldade, açoitadas pelas chuvas, abrindo caminho a machado. O abastecimento das colunas se efetuava por via aérea. Em virtude disso, os destacamentos de engenharia que acompanhavam as tropas se viram obrigados a construir uma série de pistas improvisadas no meio da floresta. Desta forma, instalou-se nas profundezas do vale do rio Ramu uma base aérea avançada, que não somente atuou como centro de abastecimentos das tropas australianas, como também se converteu em base de operações dos aviões de combate. Nos primeiros dias de novembro, dali iniciou suas incursões uma esquadrilha de caças P-40. Assim, as operações na Nova Guiné permitiram a MacArthur entrar na posse de uma cadeia de bases avançadas para controlar o espaço aéreo sobre a costa ocidental da ilha de Nova Bretanha, onde se realizaria o próximo desembarque.

Operações contra Rabaul

Ao aproximar-se o fim do ano de 1943, a dupla ofensiva iniciada pelas forças aliadas aproximavam-se também da sua culminância. O objetivo era neutralizar o grande centro de Rabaul. As tropas de Halsey, nas Salomão, depois de conquistar o grupo de ilhas de Nova Geórgia, empreenderam o ataque contra Bougainville, última escala na sua marcha ascendente para Rabaul. A fim de apoiar essa operação, a 5a Força Aérea americana, que servia sob as ordens de MacArthur na Nova Guiné, iniciara em meados de outubro uma série de violentas incursões contra Rabaul. Esquadrilhas de bombardeiros e caças submeteram a base japonesa a uma seqüência de ininterruptos ataques que se prolongaram até as primeiras semanas de novembro. Posteriormente, as forças de porta-aviões que operavam nas águas das Salomão somaram-se também à ofensiva aérea. Os aparelhos dos porta-aviões que operavam nas águas das Salomão somaram-se também à ofensiva aérea. Os aparelhos dos porta-aviões Saratoga e Princeton apoiados pelas esquadrilhas dos novos porta-aviões Essex, Bunker Hill e Independence e por aviões do exército, descarregaram novos e violentos ataques. Desta forma, Rabaul foi praticamente neutralizada. Para reforçar definitivamente a eliminação de Rabaul como centro ativo, montou-se a denominada operação Dexterity. Esse plano previa a ocupação de bases na costa ocidental da Nova Bretanha, que permitiriam aos Aliados dominar ambas as margens do estreito que separava esta ilha da Nova Guiné. Rabaul, então, situada no extremo oriental da Nova Bretanha, estaria praticamente cercada. Para realizar esta operação, organizou-se uma força chamada Álamo, que efetuaria um desembarque na zona do Cabo Gloucester, coberto por bosques e selvas pantanosas. Nesse ponto existia um aeródromo japonês que tinha que ser capturado.

A força Alamo era integrada pela 1a Divisão de Marines, comandada pelo General Rupertus, e pela 32a Divisão de Infantaria do Exército, que seria mantida de reserva. Além do desembarque no Cabo Gloucester, seria realizado, a pedido da Marinha, outro desembarque na costa meridional da ilha de Nova Bretanha, na península de Arawe, para ali instalar uma base de lanchas torpedeiras. Este último ponto seria ocupado por 1.700 soldados do 112o Regimento de Cavalaria.

O bombardeio da zona ocidental da Nova Betanha, destinado a preparar o caminho da invasão, se iniciou a 13 de novembro. As esquadrilhas com base na Nova Guiné atacaram violentamente as posições dos japoneses. Bombardeiros B-25, munidos de canhões de 75 mm na proa, atacaram, em vôo rasante, o aeródromo de Cabo Gloucester, arrasando as instalações. Mediante essa ofensiva aérea, que alcançou uma intensidade ate então nunca vista no Pacífico sul, preparou-se o terreno para o desembarque dos marines. A zona de invasão ficou praticamente isolada pelo bloqueio aéreo às linhas de abastecimento, alimentadas por barcaças.

A 15 de novembro iniciou-se o desembarque em Arawe. As tropas que desembarcaram na península encontraram uma resistência tenaz. A primeira leva de assalto caiu sob o fogo cruzado de canhões e metralhadoras e 12 de suas 15 embarcações foram afundadas. Ante o desastre, o chefe da operação ordenou deter o ataque e realizar um novo e intenso bombardeio aéreo para “amaciar” as posições inimigas. Uma segunda tentativa de desembarque, então, teve o êxito esperado. As tropas atingiram as praias em veículos blindados anfíbios, apoiados por embarcações lança-foguetes, e estabeleceram uma cabeça-de-ponte.

Enquanto se concretizava o desembarque em Arawe, a aviação intensificava o ritmo dos ataques contra o Cabo Gloucester. Dia e noite, os bombardeiros martelavam com chuvas de projéteis as posições inimigas. A 24 de dezembro, véspera de Natal, a aviação realizou o esforço máximo: sete esquadrilhas de bombardeiros efetuaram mais de 280 ataques na zona do Cabo Gloucester.

Para defender esta posição, os japoneses contavam com uns 10.000 soldados, comandados pelo General Iwao Matsuda. O grosso desta força estava concentrado em torno do aeródromo do Cabo Gloucester.

Na madrugada de 25 de dezembro, a frota que conduzia os marines zarpou da costa da Nova Guiné e rumou para o objetivo. Às 6 horas da manhã do dia seguinte, iniciou-se o desembarque. Dois cruzadores e oito destróieres descarregaram seus canhões contra as posições que defendiam a praia. A este fogo acrescentou-se o de duas embarcações lança-foguetes.

As tropas de assalto, integradas pelos fuzileiros do 7o Regimento, tocaram as praias sem oposição. A zona não era defendida, pois a poucos metros da costa se alongava um extenso pântano que servia de “defesa natural”. O chefe japonês, convencido de que os americanos não desembarcariam nesse setor, concentrara suas defesas nos flancos do pantanal.

A força de marines internou-se então, às cegas, nesse mar de lama. Ao cair na arapuca natural, o avanço dos fuzileiros se tornou terrivelmente lento, caminhando com grande dificuldade, com água e lama até o peito.

Contra-ataque de Matsuda

Depois de várias horas de marcha extenuante, as unidades da vanguarda dos marines apenas haviam conseguido penetrar 1.200 jardas para o interior da ilha. O General Matsuda, ao receber os informes do avanço inimigo através do pântano, emitiu rapidamente ordens para o contra-ataque. De acordo com seus cálculos, a situação apresentava-se muito propícia, pois poderia aniquilar os marines num rápido ataque pelo leste e pelo oeste, numa manobra de pinças.

Ao cair da tarde, os esgotados fuzileiros viram-se abrigados a deter a progressão. Os chefes das colunas deram ordem de entrincheiramento, ordem muito difícil de ser cumprida, dadas as condições alagadiças do terreno. Em pouco tempo desabou uma forte tormenta tropical, acompanhada de densa chuva e vento, circunstância que tornou ainda mais difícil a situação dos soldados. Nesse momento explodiram sobre eles os primeiros projeteis disparados pelos morteiros japoneses. O contra-ataque de Matsuda se iniciara.

Dando vivas ao Imperador (Banzai) os combatentes japoneses se lançaram a baioneta, sobre as posições dos marines. Estes os receberam com o fogo cerrado dos seus fuzis e metralhadoras. Estabeleceu-se uma encarniçada luta corpo a corpo no meio do pantanal. As linhas americanas corriam o risco de serem superadas pelas fanáticas cargas dos japoneses. Nessa situação crítica, o fogo certeiramente dirigido de uma bateria de morteiros, conseguiu desbaratar o ataque japonês. O combate, porém, prosseguiu até o nascer do sol, com uma série de sangrentas escaramuças.

Ao despontar o dia, os marines contaram mais de 200 cadáveres de soldados japoneses e 25 mortos e 75 feridos eram as baixas americanas.

Enquanto o 7o Regimento mantinha essa ação, o 1o se internava em direção ao aeródromo. A uma distância de uma milha da pista, os marines depararam com uma cadeia de casamatas feitas de troncos e artilhadas com canhões de 75 mm. Quatro tanques Sherman, então, se adiantaram e castigaram com o fogo de suas peças os redutos japoneses, destruindo-os. Os efetivos japoneses, em sua maior parte, pereceram na ação. Alguns sobreviventes conseguiram fugir através da floresta. Um cabo japonês, no entanto, foi capturado com vida. Ao ser interrogado, declarou que o aeródromo estava defendido por milhares de homens. Este fato decidiu o General Rupertus a suspender o ataque que planejava levar a cabo nesse mesmo dia, até receber o reforço do 5o Regimento de marines. Esta unidade desembarcou na manhã seguinte, 29 de dezembro, nas praias do Cabo Gloucester. A ação decisiva, então contra a aeródromo, teve início. Apoiados pelo fogo da artilharia e liderada por tanques Sherman disparando seus canhões e metralhadoras, os marines irromperam no perímetro do aeródromo. Para surpresa dos americanos, ele estava deserto. A guarnição japonesa, composta de mais de 3.000 soldados, se havia retirado para uma cadeia de colinas selvagens situadas ao sul do aeródromo.

À uma hora da tarde de 30 de dezembro, o General Rupertus enviou o informe da vitória ao General Krueger, comandante-chefe da força Álamo. A mensagem dizia: “A 1a Divisão de Marines oferece como um presente adiantado de Ano Novo o aeroporto de Cabo Gloucester. A situação está controlada devido ao espírito de luta de nossas tropas, à costumeira boa sorte dos marines e à ajuda de Deus”.

A 3 de janeiro de 1944, os batalhões de engenharia começaram a reconstrução da base aérea, destroçada pelos Aliados. Sua tarefa, porém, foi muito dificultada pelas intensas chuvas.

Depois da conquista do aeroporto, a luta se estendeu para o interior da ilha, onde ocorreram sangrentos choques entre as unidades de fuzileiros e as tropas japonesas. Os americanos tiveram que enfrentar não só o inimigo japonês mas também as terríveis condições da selva. Os pântanos, verdadeiras armadilhas mortais, dificultaram incrivelmente o avanço dos homens. As colunas marchavam em direção a Aogiri, onde os japoneses se haviam alojado numa forte posição, Essa elevação do terreno, situada ao sudoeste do Cabo Gloucester, no meio da floresta, contava com uma intrincada rede de fortificações; 37 casamatas conectadas entre si por túneis subterrâneos empresavam à posição o caráter de inexpugnável.

Os marines não podiam flanquear a colina e, obrigatoriamente, tinham que enfrentar o inimigo e destruí-lo. Sob o comando do Tenente-Coronel Walt, os marines se lançaram ao assalto, na manhã de 8 de janeiro de 1944. Trepando pelas ladeiras, os combatentes enfrentaram o fogo inimigo, que, paulatinamente, aumentou de intensidade. Pouco mais tarde, a violenta reação japonesa conseguiu deter o avanço dos americanos. Em seguida, em trágica sucessão, dezenas de fuzileiros tombaram, abatidos pela metralha japonesa. Por fim, o ataque foi destroçado pela defesa inquebrantável dos japoneses.

Ao fim da jornada, os marines estavam de novo no pé da colina, no ponto de partida. Muitos deles feridos, outros esgotados pelo esforço, e os restantes desmoralizados pelo fracasso do ataque. O Coronel Walt, percorrendo as fileiras de seus homens, comprovou que o poder combativo de suas unidades diminuíra consideravelmente. Contudo, era preciso levar adiante o ataque contra o monte Aogiri.

Na manhã seguinte, os marines se lançaram novamente ao assalto. Subindo pelas ladeiras cobertas de vegetação, alvejados continuamente pelos atiradores japoneses que se escondiam no alto, os homens de Walt avançaram com muita dificuldade. Muitos combatentes americanos, atingidos pelo fogo japonês, caíram para não mais levantar-se. Walt ordenou, então, que um canhão de 37 mm fosse transportado para a zona de combate. Este se uniu aos homens que penosamente o arrastavam ladeira acima. Colocada a peça em posição, abriu-se fogo imediatamente, utilizando projéteis de metralha. Conseguiu-se, então, aniquilar as casamatas inimigas.

Vitória americana

Os fuzileiros, ao apoderar-se da colina Aogiri, se entrincheiraram para enfrentar o iminente contra-ataque japonês. Este não se fez esperar. À meia-noite, em meio do silêncio da selva, um lúgubre coro se elevou das linhas japonesas. As ásperas vozes de dezenas de soldados japoneses em tom monocórdio, repetiam várias vezes: “Marines... prepare to die... Marines...prepare do die (Fuzileiros... preparem-se para morrer...”). Os combatentes, recarregando suas armas, se mantiveram prontos em seus postos de combate. À uma da madrugada, com enorme alarido, os japoneses atacaram. Os americanos, imediatamente, desencadearam um violentíssimo fogo contra os efetivos japoneses que avançavam correndo. As duas primeiras levas de atacantes foram exterminadas até o último homem.

Os japoneses, no entanto, haviam recebido ordens de retomar a colina ou morrer. Em conseqüência, novas massas de homens se somaram ao assalto. As posições americanas, assediadas sem descanso, corriam o risco de serem derrotadas. O Coronel Walt enviou então uma mensagem à retaguarda, requerendo a intervenção da artilharia de apoio de 105 mm. Desdenhando as objeções dos chefes das baterias, ordenou que os projéteis fossem disparados a 50 jardas adiante das linhas americanas. Era preciso correr o isco e o Coronel Walt aceitou o desafio. Instantes depois, as primeiras granadas da artilharia começaram a cair e explodir a poucos metros das posições defendidas pelos marines. Assim, a terceira onda de atacantes japoneses foi praticamente pulverizada por um dilúvio de projéteis de grosso calibre. A carnificina, contudo, não arredou os japoneses. Co seu chefe à frente, brandindo uma espada samurai numa das mãos e uma pistola na outra, os japoneses se lançaram ao assalto numa quarta leva. O fogo da artilharia, novamente, frustrou o ataque. Centenas e centenas de japoneses tombaram mortos ou feridos, assim como seu chefe. Walt, então, preparou-se para resistir à última investida. As metralhadoras dos fuzileiros estavam praticamente com as munições esgotadas; rapidamente, numerosos combatentes forame enviados à retaguarda, a fim de transportar para a primeira linha as necessárias caixas de projéteis. Na linha de frente americana, enquanto isso, o Coronel Walt, junto com seus homens, observava as vizinhas posições japonesas. Os americanos não viam os japoneses; era outra vez o lúgubre: “Marines... preparem-se para morrer...”.

Poucos minutos depois de terem partido correndo para a retaguarda, os primeiros homens transportando as caixas de balas, voltaram à linha de frente. Um instante mais tarde, em meio aos característicos estridentes alaridos, os japoneses se lançaram ao assalto. As metralhadoras americanas, disparando sem descanso, varreram as fileiras dos atacantes. O quarto assalto japonês fracassara também.

Em seguida, as forças americanas empreenderam o ataque ao último grande reduto japonês: a colina 660, situada a poucos quilômetros ao sul da colina Aogiri.

Um batalhão do 7o Regimento de Marines trepou pelas ladeiras que tinham uma inclinação de mais de 45 graus, sob a metralha inimiga, disparando furiosamente. Detidos finalmente pelos canhões de 20 mm, os americanos tiveram o seu avanço paralisado. Um destacamento de tanques leves incumbiu-se de cobrir com o fogo de suas peças a retirada dos marines. Na manhã seguinte, 14 de janeiro de 1944, os fuzileiros voltaram a atacar pelo flanco, através de um setor da colina fracamente defendido. Conseguiram, depois de encarniçada luta, apoderar-se da posição. A resistência japonesa cessou, então, em toda a zona próxima ao Cabo Gloucester. A segurança desta base ficou, portanto, consolidada.

A 10 de fevereiro, a campanha na extremidade ocidental da Nova Bretanha encerrou-se, quando estabeleceram contato as patrulhas americanas, procedentes da península de Arawe, pelo sul, e os fuzileiros do Cabo Gloucester, pelo norte.

A luta, porém, continuou, na perseguição dos elementos japoneses fugidos rumo ao leste. O objetivo principal, no entanto, fôra atingido.

À vitória na Nova Bretanha acrescentou-se a conquista das ilhas do Almirantado, situadas ao norte de Rabaul. A ocupação destas ilhas foi o ponto final da campanha, pois bloqueou definitivamente todas as forças japonesas que ainda restavam nas ilhas Bismarck e nas Salomão. Mais de 100.000 soldados japoneses permaneceriam ali, sem possibilidade de escapar, até o fim da guerra.


Anexo

Bombas sobre a Nova Guiné
O general George Kenney, chefe da 5a Força Aérea americana durante a campanha da Nova Guiné, relata o ataque de seus bombardeiros aos aeródromos japoneses dessa ilha.
Pouco antes da saída do sol, a 17 de agosto de 1943, iniciou-se o grande ataque contra os aeródromos de Wewak; 40 B-324 e 12 B-17 arrasaram as bases japonesas em But, Borum, Dagua e Wewak com 200 toneladas de bombas. Dois dos nossos B-24 perderam-se na incursão e outro B-24 aterrissou na costa sul da Nova Guiné com quatro tripulantes mortos a bordo. Informou-se ao término do ataque que o fogo antiaéreo em Wewak fôra extremamente intenso e certeiro. Duas horas mais tarde, 33 B-25, juntamente com 83 P-38 de escolta, efetuaram um ataque simultâneo contra Borum, Wewak e Dagua; 16 B-25, destinadas a bombardear a base de But, defrontaram-se com péssimas condições climáticas e não conseguiram alcançar o objetivo. O Tenente-Coronel Don hall guiou o ataque dos B-25 contra Borun.
Aproximando-se, quase raspando as copas das palmeiras, Don avistou uma cena que o encheu de satisfação. Os bombardeiros japoneses, mais de 60 aparelhos, estavam alinhados de ambos os lados da pista, com seus motores em movimento e as tripulações a bordo. Grupos de mecânicos estavam também junto aos aviões. Os japoneses já iniciavam a decolagem e o avião-guia estava na metade da pista, começando a se elevar do solo. Num campo ao lado, 50 caças japoneses esquentavam seus motores, prontos para empreender vôo, escoltando os bombardeiros. O Tenente-Coronel Hall deu a ordem para atacar; sua primeira descarga fez voar em pedaços o avião-guia, no instante em que decolava. Seus restos caíram sobre a pista, bloqueando-a por completo. A formação de B-25 passou como um furacão sobre o aeródromo. A dupla linha de aviões japoneses foi quase que instantaneamente envolvida pelas chamas, ao ser atingida pelo dilúvio de projéteis incendiários disparados por mais de 200 metralhadoras calibre 50. As peças antiaéreas foram arrasadas, os tambores de gasolina empilhados junto à pista, explodiram, desprendendo enormes colunas de fogo. Nesse inferno de explosões e debaixo da chuva de balas, sucumbiram, sem possibilidade de escapatória, tripulantes e mecânicos. Destruímos os bombardeiros no momento exato. Cinco minutos depois, e os japoneses teriam levantado vôo para atacar nossa base em Marilinan.
Wewak sofreu a mesma sorte. Trinta caças japoneses esquentavam os motores para decolar, quando 12 B-25 os atacaram de surpresa. Repetimos ali a destruição conseguida em Borum. Apenas três B-25 bombardearam Dagua, porém novamente a surpresa rendeu os seus dividendos. Mais de 20 aviões inimigos foram destruídos, e pelo menos igual cifra acabou gravemente avariada.
Soubemos mais tarde que os japoneses denominaram essa jornada como o “dia negro de 17 de agosto” e que perderam mais de 150 aviões, junto com quase toda as suas tripulações, e cerca de 300 homens do pessoal da manutenção. Todos os nossos bombardeiros e caças regressaram às suas bases”.


Yank”
Ilha de Manus, a 320 km ao norte de Nova Guiné. Fevereiro de 1944. Os destróieres americanos ocupam suas posições de fogo de apoio e começam a disparar sobre as praias e zonas vizinhas, ocupadas pelos japoneses. Imediatamente, os destróieres incumbidos do transporte de tropas, arriam as barcaças de desembarque. Os homens descem pelas redes e ocupam os lugares distribuídos de antemão. Com um rugido de motores, as lanchas avançam para as praias. Quando as embarcações se encontram a algumas centenas de metros da costa, as metralhadoras japonesas abrem fogo. Como respondendo a uma ordem, os canhões costeiros começam a disparar sobre os americanos.
Escapando aos disparos, as embarcações continuam aproximando-se. Quando as lanchas encalham na areia, os homens pulam fora e ganham as proteção de troncos caídos e da dunas de areia. Os japoneses, por sua vez, silenciando o fogo das suas armas, retiram-se precipitadamente, ocultando-se na floresta. As metralhadoras das barcaças, duas de calibre 30 em cada lancha, varrem a espessura protegendo os combatentes que continua desembarcando.
Os homens saltam das lanchas, correm, lançam-se ao solo, arrastam-se, voltam a levantar-se, e correm até o próximo refúgio. Carregam o pesado equipamento de campanha e progridem dificilmente. Um do homens porém, leva nas mãos, como única arma, uma máquina fotográfica. E a utiliza sem cessar. Homens que correm, que saltam das lanchas, que caem feridos, tudo fica registrado na câmara da máquina fotográfica. É mais um combatente, porém sua arma não fere, nem mata. Ela se limita a registrar cada cena que ocorre. É um correspondente de guerra. Mas os grandes jornais do mundo, os semanários e as revistas ilustradas jamais terão suas fotos nem suas notas. Porque é um correspondente do “Yank”. O “Yank” é o semanário oficial do Exército dos Estados Unidos. A publicação, impressa nos Estados Unidos, Panamá, Trinidad, Porto Rico, Inglaterra, Austrália, ilhas do Havaí, Egito, Índia e no Irã, é distribuída em todos os lugares do mundo onde haja soldados americanos. “Yank” é a única publicação militar, escrita, editada e impressa por soldados. Estes, que na vida civil eram repórteres, fotógrafos ou redatores, hoje desempenham as mesmas tarefas em benefício dos seus companheiros de armas.
O primeiro número do “Yank” apareceu em junho de 1942. Começou publicando-se exclusivamente nos Estados Unidos, porém poucos meses depois uma nova edição começou a ser editada na Inglaterra. Posteriormente, sucessivas edições foram sendo publicadas em diferentes locais, até cobrir todos os setores onde houvesse soldados americanos.
O Yank publica crônicas das diversas frentes, caricaturas, notícias relacionadas com a situação militar e, em geral, tudo o que possa ser de utilidade informativa para os homens que lutam longe dos seu lares.
Transcrevemos a seguir a crônica do desembarque na ilha de Manus, extraída de uma edição do Yank:
Quando nos aproximamos do canal, os homens da marinha que estavam na proa nos gritaram que baixássemos as cabeças, se não quiséssemos perde-las. Agachamo-nos mais, esperando e maldizendo.
Sentimos um silvar sobre nossas cabeças; era o fogo das metralhadoras inimigas. A nossa frágil lancha de desembarque estremeceu toda quando os artilheiros navais responderam com as peças de calibre 30 montadas de ambos os lados da barcaça.
Quando viramos em direção da praia, houve um baque seco na embarcação. ‘Atingiram um dos nossos canhões ou algo parecido...’ disse um artilheiro.
Na frente via-se um rombo nomeio da rampa de desembarque e não havia mais nenhum homem, onde estavam quatro, havia poucos instantes. Nossa lancha virou a proa para o destróier que nos trouxera às ilhas do Almirantado.
Jorros de água e espuma penetravam pela abertura de seis polegadas aberta na rampa de madeira. William Siebieda agachou-se, na sua posição na peça de artilharia de estibordo, e firmou sua cadeira contra o buraco para tapa-lo. Estava disparando contra a costa com uma submetralhadora Thompson, com toda a rapidez com que os soldados feridos podiam passar-lhes os pentes de balas. A água o encharcava inteiramente, correndo pelas suas pernas e convertendo o sangue dos feridos num liquido rosado.
Dois soldados e o timoneiro morreram. O quarto homem nem sequer fôra ferido”.
Outro correspondente do Yank assi descreve as dificuldades para eliminar as forças inimigas de um setor ocupado pelos americanos:
Aproximadamente às 7h30, o chefe do telégrafo da divisão, um capitão, passou diante de ‘uma toca de raposa’ e um japonês fez fogo contra ele, ferindo-o na perna e no peito. Estirado na lama, a dois metros do ângulo formando pela trincheira em forma de V, o capitão apontou para a ‘toca de raposa’.
O soldado Allan Holliday, de Miami, Florida, e o cabo James Stumfoll, de Pittsburg, Kansas, que caminhavam ali perto quando o capitão fôra ferido, se agacharam atrás das palmeiras e abriram fogo contra o esconderijo.
Quando quatro japoneses saíram correndo pela outra entrada, foram apanhados por uma patrulha que ali estava colocada. Holliday e Stumfoll se ergueram e lançaram granadas pela abertura próxima deles. Os japoneses conseguiram devolver, lançando fora, duas granadas, porém, as outras explodiram dentro da cova.
Depois disso, não se ouviu mais ruído algum no seu interior, de modo que Holliday e Stumfoll e um punhado de outros soldados da cavalaria cercaram o esconderijo e tiraram as folhas de palmeira que disfarçavam uma das entradas.
Um japonês estava sentado no interior, apontando com um fuzil. Umas vinte carabinas e metralhadoras partiram o seu corpo, virtualmente, em dois. Tombou para a frente como um homem orando.
Os soldados ouviram outros rumores no interior do fortim, mas nem quiseram mais saber quem os produzia; simplesmente fizeram “a cova” voar pelos ares com cargas de TNT e granadas, e a luta terminou.
Enquanto isso, o chefe do telégrafo, ferido, havia sido arrastado, para fora do alcance dos japoneses, pelo oficial superior do Corpo Médico da força: um coronel que estava também levemente ferido por uma granada. Um fotógrafo do Corpo de Sinalizações que tentou filmar a ação recebeu um tiro no estômago”.


Os porta-aviões americanos
Na primeira fase da guerra no Pacífico, a Marinha americana sofreu a perda de quatro dos seus grandes porta-aviões: o Lexington na batalha do Mar de Coral, o Yorktown, no encontro decisivo de Midway, e o Wasp e o Hornet, nos encarniçados combates navais no arquipélago das Salomão. Dos três porta-aviões que restavam em operações, um, o Ranger, encontrava-se no Atlântico, os outros dois, o Enterprise e o Saratoga continuaram no Pacífico sustentando durante vários meses todo o peso da luta. Logo, no entanto, os estaleiros americanos, trabalhando febrilmente, entregaram novas naves, acabado com a superioridade japonesa.
No mês de maio de 1943, o gigantesco Essex, primeiro porta-aviões de um novo tipo de 25.000 toneladas, incorporou-se ao serviço ativo na base de Pearl Harbor. Um escritor naval americano, o Tenente Oliver Jensen, expôs assim a importância desta belonave no ressurgimento do poderio naval dos EUA:
A construção desse milagre da ciência moderna fôra acompanhada pela oficialidade da Marinha com uma carinhosa expectativa, desde a precisão de detalhes nas pranchetas dos projetistas, até o barulhento martelar dos operários construtores, pois ele representava o tipo de frota de batalha que a marinha almejava. Tudo o que havia a bordo, desde sua ampla coberta de vôo de 850 pés de comprimento, até seu compartimentos cheios de instrumentos delicados e secretos, fôra planejado para operações futuras. Ao contrário dos outros grandes porta-aviões, este fôra construído de conformidade com a experiência adquirida na guerra efetiva e o seu propósito era o combate... Com a perda dos quatro primeiros grandes porta-aviões, havíamos adquirido, na dura realidade, o conhecimento de suas falhas. Aprendemos que eram vulneráveis ao fogo, e que careciam de proteção aérea eficiente. Aprendemos que teríamos que buscar métodos mais rápidos para manobrar, lançar e recuperar os aviões. Recorreu-se à imaginação e embora seja certo que a perfeição se encontra sempre um pouco além do horizonte, não existira ainda na História navio algum que aproximara tanto da meta desejada como o Essex”.
No decorrer do ano que se seguiu à incorporação do Essex, a frota americana no Pacífico aumentou o número dos seus porta-aviões de forma acelerada, até chegar à cifra de 100 naves desse tipo. Da classe do Essex, de 25.000 toneladas, eram os novos porta-aviões Yorktown, Lexington, Hornet e Wasp (estes batizados com os nomes dos porta-aviões afundados) e o Bunker Hill, o Intrepid, o Hancock, o Bonhomme, Richard e o Shangri-La. Também constavam da categoria dos grandes porta-aviões, o Enterprise e o Saratoga, os dois únicos sobreviventes da etapa inicial da guerra, amplamente modernizados. Além disso, a frota recebeu outros porta-aviões menores: os da categoria Independence, de 10.000 toneladas. Eram naves extremamente velozes e manobráveis. Ao Independence logo se juntaram outros: o Vataan, o Princeton, o Monterey, o Cabot, o Belleau Wood, o Cowpens, etc. Outros porta-aviões, denominados “de escolta”, construídos utilizando cascos de petroleiros e navios mercantes, prestaram extraordinários serviços na proteção de comboios, no apoio de operações de desembarque e como navios-transporte de aviões para as frentes de luta. Por sua menor velocidade, pelo reduzido número de aviões embarcados, e pela sua elevada vulnerabilidade, estes últimos tipos não eram empregados na primeira linha de operações de combate.
As esquadrilhas dos novos porta-aviões eram interadas pelos modernos caças Grumman Hellcat, equipados com um motor de 2.000 HP e armados com seus metralhadoras calibre 50 nas asas. Estes aparelhos eram também fortemente blindados e contavam com tanques de combustível auto-obturáveis. Os Hellcat permitiram aos americanos esmagar definitivamente a superioridade que, desde o princípio da guerra, ostentavam os mortíferos Zeros japoneses. Como aviões de ataque, figuravam o torpedeiro Grumman Avenger com um motor de 1.700 HP e três tripulantes, o eficiente bombardeiro de mergulho Douglas Dauntless e o novo bombardeiro de mergulho Curtiss Helldiver.


Córrego do Suicídio”
Nos céus da ilha de Nova Bretanha, o sol brilha com fulgurante intensidade. Mas, apenas fracos raios de sua luz chegam aos homens que avançam penosamente na mata, submersos no emaranhado impenetrável da vegetação. São soldados do 5o Regimento de Marines americano e marcham, abrindo passagem a golpes de facão, à caça das tropas japonesas, que permanecem emboscadas no meandros da selva. De súbito, na cabeça da coluna ressoam disparos. Automaticamente, os combatentes se distribuem entre a mata e, engatilhando suas armas, apontam-nas para o ponto de onde partiu a descarga. O pelotão da vanguarda se encontra junto às margens de um córrego, cujas águas escuras correm silenciosamente, no meio da espessura. Essa estreita corrente é o ponto que os japoneses escolheram para bloquear o avanço dos marines. Na margem oposta, ocultos pela vegetação e entrincheirados em redutos invisíveis, camuflados com ramos e folhagens, aguardam que os americanos tentem prosseguir o seu avanço.
Após uma pausa de poucos minutos, o chefe da coluna de marines dá aos seus homens a ordem de atacar. Na há possibilidade de flanquear a posição inimiga. É preciso lançar-se ao ataque frontal, vadeando as águas do córrego. Sem vacilar, os fuzileiros se internam, com suas armas erguidas, na corrente. Atrás, ocultos pelos troncos das árvores e entrincheirados nas reentrâncias do terreno, os morteiros e metralhadoras desatam uma violenta barragem de fogo ara cobrir o avanço. Porém a carnificina não pode ser evitada...
Os japoneses respondem à descarga, ceifando com o fogo cruzado de suas mortíferas metralhadoras Nambu os marines praticamente indefesos, que tentavam atravessar a arroio. Em poucos instantes, tudo termina. Dezenas de corpos imóveis, crivados de balas, ficam flutuando sobre a água, avermelhada pelo sangue. A terrível operação, no entanto, se repete uma e outra vez. Alguns marines, escapulindo da chuva de projéteis, consegue atingir a outra margem, para cair ali, exterminados a golpes de baionetas pelos japoneses que,d e surpresa, surgem de suas posições camufladas na mata. Essa luta sem piedade se prolonga durante o dia inteiro até que, finalmente, o chefe americano resolve por um termo ao sacrifício dos seus homens. Sua decisão, porem, chega muito tarde. Os fuzileiros firam, praticamente, dizimados.
Na retaguarda, é recebida a notícia da matança do córrego, ao qual as tropas já apelidaram “córrego do suicídio”. O General Rupertus, chefe das forças de fuzileiros-navais, decide então colocar à frente do ataque um homem que para os marines constitui toda uma lenda de coragem e audácia: o Tenente-Coronel “Chesty” Puller. Puller, uma vez mais, fará justiça à sua fama. Reúne os combatentes e determina, terminantemente: “Temos coragem para passar e passaremos”. Porém o plano de Puller não se limita a uma cega investida a baioneta. Manda deslocar até as margens do “córrego do suicídio” uma escavadora e vários blindados semilagartas munidos de canhões de 75 mm. Às 8 horas da manhã seguinte começa o ataque. A escavadora avança rugindo sob o fogo cruzado das metralhadoras japonesas e abre com sua gigantesca pá, uma brecha nas inclinadas margens do arroio. Através dessa brecha se movimentam os semilagartas e ao atingir a margem oposta, disparam a queima-roupa os seus canhões contra as casamatas japonesas, fazendo-as voar em mil pedaços. Atrás processa-se a carga dos fuzileiros, disparando seus fuzis e metralhadoras e lançando granadas. Os japoneses foram, então, exterminados até o último homem.


Pappy” Boyington
3 de janeiro de 1944. Bougainville. Nas pistas da base aérea americana alinham-se, com os motores rugindo, os caças Corsair da esquadrilha das “Ovelhas Negras”. Os pilotos que integram a formação foram selecionados baseados num estranho antecedente: sua má conduta. De fato, os homens que tripulam os Corsair são aviadores separados de diversas esquadrilhas, por castigo ou expulsão. Os motivos: indisciplina, rebeldia, insubordinação e muitas causas mais. Essa coleção de inadaptados foi reunida numa formação: as “Ovelhas Negras”. As características do seu chefe, o Coronel Gregory “Pappy” Boyington, dos Fuzileiros-Navais, asseguram ao Alto-Comando que a disciplina no grupo será exemplar. E assim ocorre, efetivamente. Boyington, “ás” que tem a seu crédito 26 aviões inimigos derrubados, é um piloto de vasta experiência, que combate contra os japoneses desde o momento em que os Tigres Voadores entraram em ação na China. Ali começou a sua caça aos japoneses. Posteriormente, outros 20 aviões inimigos se agregaram à lista de Boyington. Com 26 aviões derrubados, o “ás” americano igualou o recorde ostentado, desde a Primeira Guerra Mundial, por Rickembaker.
As Ovelhas Negras decolaram e rumaram para Rabaul, base inimiga objetivo da incursão. Os japoneses, no entanto, alertados por seus observadores avançados, interceptaram a formação inimiga. A “luta de cães” começou imediatamente. “Pappy” Boyington, sem vacilar, lançou-se sobre a formação inimiga seguido pelo avião que voava ao seu lado. O fogo das metralhadoras do “ás” americano perfurou as asas e a fuselagem de um dos aviões japoneses. Descrevendo um amplo giro, ele se afastou do avião japonês, que começou a cair, envolto em chamas. Sempre seguido por seu companheiro de formação, o aparelho do americano perdeu altura para atacar um grupo de máquinas inimigas que voava muito baixo. Os dois aviões entraram num mergulho a toda força dos motores, sem notar a presença de um grupo de 20 aviões japoneses que, do alto, caíram sobre eles.
As metralhadoras dos aviões japoneses começaram imediatamente a vomitar sua mortífera carga. O avião que acompanhava Boyington foi atingido logo e começou a perder altura. O “ás” americano, tratando de proteger o seu companheiro, precipitou-se atrás dele, disparando contra os caças japoneses. Estes, no entanto, impuseram o peso do seu número. E o avião de Boyington recebeu uma verdadeira saraivada de balas. Por fim, com o tanque principal do seu aparelho envolto em chamas, ele desceu até quase roçar a crista das ondas. Nesse instante, quando se encontrava a mais ou menos 30 metros da superfície, Boyington picou violentamente e o seu corpo voou, expulso da carlinga do seu avião. Um brusco puxão indicou a Boyington que o pára-quedas começara a se abrir. No entanto, antes que o pano chegasse a se abrir totalmente, o corpo do piloto americano submergiu nas ondas. Segundos depois, voltando à superfície, Boyington percebeu que quatro dos caças japoneses sobrevoavam o local. Os aviões inimigos, ao divisar o americano, precipitaram-se sobre ele, metralhando-o. mergulhando uma e outra vez, ele escapou às rajadas. Afinal os aviões japoneses se afastaram.
O “ás” americano, então, inflou o bote de borracha que fazia parte do seu equipamento e subiu nele. Ao tirar o uniforme, ele percebeu muitos ferimentos que dilaceravam todo o seu corpo. As balas inimigas haviam perfurado o seu ombro e as pernas; o tornozelo esquerdo estava destroçado por um projétil de 20 mm.
Depois de improvisar penosamente umas bandagens, Boyington começou a remar rumo à costa distante. Oito horas depois, a silhueta de um submarino se recortou nas proximidades. Boyington, quase inconsciente pela perda de sangue e pela dor, continuou remando em direção ao barco. Quando estava junto a ele, notou que era japonês.
Ele permaneceu prisioneiro dos japoneses até o final da guerra. Então, o Congresso dos EUA condecorou-o com a Medalha de Honra.


King
Fazer o que se pode com o que se tem” foi o lema do Almirante King. No princípio de 1942, pouco depois do Presidente Roosevelt eleva-lo ao mais alto posto da Marinha, nomeando-o Chefe Naval dos Estados Unidos, disse: “Estamos ocupados preparando a vitória”. E acrescentou: “Nenhum almirante contou com melhores combatentes”. O Almirante King nasceu em 1878, em Ohio, Estado situado no interior do país, e desde pequeno mostrou-se fascinado pelas histórias do mar. Em 1887, num exame de seleção, ganhou o direito de freqüentar a Academia Naval dos Estados Unidos, em Anápolis, onde se graduou em quarto lugar, numa classe de 67 alunos. Ainda cadete, o jovem Ernest King serviu no cruzador San Francisco durante o sítio de Havana, na guerra que libertou Cuba do domínio espanhol e levou esse país a constituir-se em república independente. Durante a Primeira Guerra Mundial foi ajudante do Almirante Henry Mayo, chefe do Estado Maior e comandante-chefe da Frota do Atlântico. Durante o bombardeio britânico de Ostende, Bélgica, resistiu ao fogo inimigo, junto com o Almirante inglês Jellicoe, tendo recebido por essa ação a Cruz Naval.
Ao terminar a guerra, King foi nomeado diretor da Escola de Estudos Superiores de Anápolis. Em 1923 assumiu o comando de uma base de submarinos e em 1928, depois de se ter preparado como aviador naval, foi nomeado comandante das esquadrilhas da Frota de Reconhecimento. O Almirante King tinha 59 anos quando decidiu aprender a voar e se apresentou como voluntário para treinar na Estação Naval Aérea em Pensacola, Florida. Ali, conseguiu o brevê de piloto, numa idade que muitos peritos consideram avançada demais para essa façanha.
A experiência adquirida pelo Almirante King na aviação o conduziu à sua próxima nomeação: assistente-chefe da Aviação da Marinha dos Estados Unidos. Exercendo esse cargo, foi comandante do transporte “Lexington”. Em 1933 foi nomeado chefe da Aeronáutica e nesse posto iniciou uma grande expansão do Serviço Naval Aéreo. Após a eclosão da segunda Guerra Mundial, em 1940, King foi nomeado comandante das forças de patrulha. Nessa circunstância deu ordens de disparar sobre qualquer submarino que fosse descoberto navegando nas vizinhanças da costa dos Estados Unidos. Em fevereiro de 1941, quando ascendeu ao posto de chefe da Frota do Atlântico, coloca-a em pé de guerra, e ordenou que os barcos permanecessem com suas luzes apagadas durante a noite e que os artilheiros estivessem em serviço permanente, mantendo, prontos para funcionar, dia e noite, os canhões e as baterias.
O senhor me oferece um grande pedaço de pão e muito pouca manteiga”, disse ao Presidente Roosevelt quando este o nomeou. O Almirante se referia, ao dizer isso, ao fato de que um imenso setor do Oceano Atlântico tinha que ser patrulhado e possuía muitos poucos barcos para cobrir essa superfície. O número de barcos designados para o almirante foi aumentado e alguns meses depois, o presidente, familiarmente, perguntou: “Então, Ernie, você agora está satisfeito?”. “A qualidade é boa - respondeu King - porém o senhor continua me dando mais pão que manteiga, presidente”.
Ao ser nomeado comandante-chefe da Frota dos Estados Unidos, o “pão” do Almirante King se converteu no mundo inteiro.
Ernest King é um homem decidido - declarou um antigo amigo do almirante. Possui uma agilidade mental valiosíssima para os casos de emergência. É o homem para dirigir a Marinha em tempo de guerra”. O Almirante King morreu em 1956.


Como combatiam os japoneses
Reproduzimos parágrafos da crônica oficial das ações sustentadas pelas forças americanas na ilha do Almirantado. Nela se descrevem os pormenores de um sangrento combate noturno com as tropas japonesas que permitem avaliar o denodo quase fanático que insuflava os soldados japoneses a sacrificar suas vidas em ataques suicidas.
Os japoneses começaram a sondar as posições às 20h20. Às 21 horas, um avião inimigo nos sobrevoou e, em três passadas, lançou oito bombas. Não causaram danos, salvo cortar as linhas telefônicas que ligavam ao setor do 1o Esquadrão. Quando o avião se afastou, os japoneses acenderam foguetes luminosos amarelos e um projétil com uma trajetória luminosa, aparentemente de 20 mm, foi disparado verticalmente.
Os japoneses avançaram com suas armas automáticas, sem ter, aparentemente, outro plano de ação senão atacar-nos de frente, em campo aberto, confiando em que a obscuridade os protegia. A conversação excitada das guarnições das baterias revelou, contudo, onde eles as estavam colocando, e se converteram em alvos fáceis para os atiradores da defesa.
Os atacantes foram envolvidos pelo fogo dos morteiros que localizaram os seus projéteis com precisão de 20 a 50 metros à frente de nosso perímetro... O ataque contra a posição do 2o Esquadrão foi uma ameaça maior. Os japoneses, ao se aproximar, lançaram granadas que caíram diante das nossas linhas. Depois penetraram na zona minada; apesar de terem explodido todas as minas antipessoais e as armadilhas “booby”, o inimigo continuou aproximando-se. Num estranho contraste com as infiltrações perfeitamente dissimuladas da noite anterior, desta vez não fizeram nenhum esforço para se ocultarem.
Gritando e cantando, os japoneses avançaram para as linhas defendidas por nossas armas automáticas. Os que vinham na frente foram aniquilados, mas continuavam chegando outros que marchavam sobre os cadáveres dos primeiros. As armas automáticas continuaram martelando, enquanto os fuzileiros, localizados sobre os flancos ou na retaguarda, rechaçavam toda tentativa de infiltração dos japoneses a poder de metralha. Pouco antes do amanhecer, numerosos japoneses, utilizando granadas e punhais, penetraram nas posições da companhia G. O comando dessa unidade organizou um contra-ataque e desalojou o inimigo. O pelotão do Tenente Henshaw, combatendo por trás de um aterro bem defendido, recebeu o impacto mais forte de vários dos poderosos ataques contra a companhia G. Os japoneses que conseguiram atravessar o fogo cruzado das metralhadoras, trataram de, passando por cima dos mortos, subir pelo lado oeste do aterro. Foram exterminados com o chumbo das metralhadoras, fuzis e granadas.
Apesar dos ataques contra o flanco norte, especialmente contra a companhia G, serem quase esmagadores pela sua potência de freqüência, careciam quase sempre de coordenação e resultaram completamente ineficazes, enquanto nossas tropas tinham munições. Uma coluna de japoneses avançou, mais ou menos uma hora antes do amanhecer, cantando “No Coração do Texas”. Foram mortos por minas antipessoais e pelo fogo mortal das armas leves de todas as tropas da posição. Quando os ataques contra a companhia G se esgotaram, um oficial japonês conduziu um grupo de 12 soldados para campo aberto. O oficial arrancou a espoleta de uma granada, bateu-a contra seu capacete e a encostou no estomago. Os 12 soldados se suicidaram também com granadas”.
Truques
Os japoneses puseram em jogo uma série de truques e, e, algumas oportunidades, tiveram êxito. Conseguiram inteirar-se do nome de alguns chefes de pelotões americanos. Numa ocasião, um japonês gritou: “Retire-se, Thorne, todo o regimento está batendo em retirada para outra linha!”. Isto deu origem a que o pelotão de morteiros sob as ordens do 1o tenente Thorne abandonasse suas posições. O pelotão não apenas sofreu três baixas, como também não pôde dirigir o fogo de seus morteiros durante o resto da noite. Outro truque era fazer com que alguns japoneses se movimentassem diante de nosso perímetro para atrair sobre si o fogo das metralhadoras. Então dois ou três atiradores especializados disparavam projéteis com trajetória luminosa sobre qualquer arma que se denunciasse, possibilitando aos morteiros abrir fogo contra a posição. Entre 22h30 e meia-noite ocorreram, numa bateria antiaérea de 90 mm, vários casos de mensagens telefônicas dizendo, uma vez, que quem falava era um determinado oficial americano, e outra vez que era um sargento. Em ambos os casos comunicavam o fracasso dos nossos planos e o triunfo dos japoneses. Como as vozes não foram reconhecidas, não se tomaram em consideração as mensagens. No entanto, uma dessas mensagens fez com que o 211o Batalhão de Artilharia Antiaérea trocasse de posição o seu Posto de Comando...”.


Somente nossos nomes restam...”
24 de março de 1944. A atividade das tropas japonesas começa a minguar, minuto a minuto. Dias mais tarde, entre 26 e 31 de março, a sorte dos japoneses tende a definir-se. Os sobreviventes mantinham ainda posições defensivas a oeste das colinas de Papitalai, porém carecendo de munições e de suprimentos não puderam opor nenhuma resistência às forças americanas que se aproximavam do leste e do oeste. Muitos redutos, alguns deles recém-construídos, foram descobertos na região a oeste da colina 260. Achou-se um esconderijo que tinham um poço de seis metros de profundidade, conduzindo a um túnel que desembocava na ladeira da colina; outras construções similares tinham poços de três a quatro metros de profundidade. Contudo, já na noite de 23 para 24 de março, a deficiente situação dos japoneses, no terreno das munições, foi dada pelo fato de que eles começaram a jogar estacas e pedras das “tocas de raposa” contra o 1o Esquadrão do 12o Regimento de Cavalaria americano.
Um Diário encontrado no cadáver de um soldado japonês revela a sorte sofrida por quase todos os sobreviventes:
28 de março. A última noite foi tranqüila, com exceção de ocasional fogo de morteiros e fuzis. De acordo coma conferência celebrada pelos diversos chefes de unidades, decidiu-se abandonar a posição atual e bater em retirada. Os preparativos para isso já estão sendo feitos. No entanto, parece que esta ordem foi cancelada e que defenderemos firmemente esta posição. Ah, esta é uma derrota honrosa, e acho que devemos ter orgulho da forma como nos comportamos. Somente nossos nomes restarão, e isso é algo que não me agrada muito. Sim, a vida dos que restam agora, uns 200 ao todo, está limitada a uns poucos dias.
30 de março. Este é o oitavo dia desde que começamos a retirada. Caminhamos continuamente, dando voltas pelos atalhos das montanhas, para evitar o inimigo. Até agora não chegamos ao nosso destino, porém, esgotamos completamente nossas rações. Nossos corpos estão cada vez mais debilitados e a fome está se tornando insuportável.
31 de março. Apesar de carecermos completamente de rações, a marcha continua. Quando chegamos a Lorengau? Ou esta unidade será aniquilada nas montanhas? À medida que avançamos vamos tirando um por um nosso equipamento e nossas armas.
1o de abril. Chegamos a umas choças dos nativos. Segundo um comunicado, as tropas amigas de Lorengau não nos podem ajudar e batem em retirada. Já não temos outra alternativa senão viver como fazem os nativos”.